11 de dezembro de 2017

AINDA FRANK SINATRA- O CHEFÃO ( final )



Me interessei pelas biografias do Frank Sinatra a partir do ano 2000. Estava em Chicago onde vivia uma filha. Era dia do meu aniversário e ela fez uma reserva me dizendo que eu iria adorar o lugar. Cheguei cedo. Era um lugar chique, sem sofisticação. Um senhorzinho de cabeça branca como barmen era o único habitante naquela hora. Me serviu um dry martini e continuou no que estava fazendo. Pus-me a olhar as paredes do bar. Todas decoradas com cartas e bilhetes. Emoldurados, criteriosamente datilografados, dirigiam-se a um único personagem: o dono do bar, seu amigo. Outra coisa me chamou atenção: em nenhuma das cartas havia maiúsculas. Tudo escrito em letras minúsculas. Não me perdoo por haver esquecido o nome daquele personagem e do lugar. Como não me recordo do nome nunca pude busca-lo na internet. Busquei o bar. Aparece mais de 20 lugares como preferidos do Sinatra na velha Chicago. Um deles diz o mestre Google era-lhe mais assíduo. Mas não há referencias a cartas emolduradas na parede.
Fiquei impressionado. Como um artista como Frank Sinatra encontrava tempo para escrever longas cartas (eram muitas) e saborosos bilhetes? Pelo que observei seus textos lembravam uma vida, mas os escritos estavam datados, do primeiro ao último, em pouco menos de dez anos. Aquilo provavelmente não era nada diante da quantidade de amigos que Sinatra fez na vida. Dalí para frente busquei algo mais que o cantor. E como tem…
Atribuem o aprimoramento do seu talento aos muitos anos que passou na orquestra de Tommy Dorsey como crooner. Esses anos deram aos seus ouvidos cultura e foro musical. É a dedução lógica. Sua sensibilidade musical era tamanha que fazia todo o mundo do jazz americano curvar-se a seus pés, mesmo ainda desconhecido. Diz o jornalista James Kaplan que havia algo mais: seu impressionante controle de respiração ao cantar vinha de uma vantagem anatômica na caixa torácica.
Sua legião de amigos; sua indescritível capacidade para o álcool; seu grupo de noitadas conhecidos como RAT PACK (turma do rato) sua vida perdulária; seus acessos de fúria incontroláveis; o desprezo e provocação por autoridades e jornalistas; sua arrogância e sua sexualidade voraz junto ao incomparável poder de sua voz tornavam-no um manipulador de emoções. Apesar de volátil e impaciente era capaz de grandes atos de generosidade.
O jornalista Gay Talese passou toda a sua vida tentando entrevista-lo. Jamais conseguiu.  Mas uma das melhores definições sobre Frank Sinatra parece ser a do produtor Jack Entratter ao se encontrar com seu regente Quincy Jones, como está na página 745 do volume dois:
– O que vocês fazem com o Frank? Quando ele está com o Rat Pack aqueles caras vão para a sauna às cinco e meia da manhã tomando Jack Daniel’s. Eles passam a noite toda na farra. Mas, quando vocês trabalham com ele, Frank chega 45 minutos adiantado com a partitura, uma pasta e exercícios vocais. Dá para ver que ele está preparado. Porque, apesar de tudo o que veio depois, os filmes, a TV e tudo mais, antes de qualquer coisa Frank foi um cantor de orquestra, essa é a raiz dele.
E quem não gostaria de estar no Rat Pack? Entre outros, em diferentes épocas, era composto por Dean Martin, Sammy Davis, Jerry Lewis, Peter Lawfford, humphrey Bogart . Orson Wells.
O Brasil aparece por duas vezes no segundo volume da biografia escrita por Kaplan. A primeira na página 842 quando ele rememora o famoso telefonema de Sinatra para Tom Jobim, de madrugada, de Los Angeles para o bar do Antonio’s, famoso botequim com varanda de Ipanema no ano de 1966. Era dezembro. Pouco tempo depois o maestro brasileiro estava nos estúdios na Califórnia gravando os álbuns memoráveis. São apenas duas páginas do livro. Mas a descrição do autor sobre a musica do Tom, na página 843, vale a leitura de metade do livro. São as dez linhas mais bonitas sobre a obra do Jobim que já li. A outra referencia ficou para sua apresentação no Rio de Janeiro. É considerado o maior show de sua carreira. Havia 170 mil pessoas na noite de 26 de janeiro de 1980 no Maracanã. E chovia muito.  Sinatra queria ir embora para desespero dos organizadores. Mas rendeu-se diante da ovação. Ele voltaria ao Brasil um ano depois para cantar em três noites, de 13 a 16 de janeiro de 1981 no Maksoud Plaza em São Paulo. Essa viagem não consta deste livro.
Mas há uma infinidade de histórias deliciosas. As longas e torturantes negociações para gravar Stranger’s in the Nigth que ele não queria; seus quatro casamentos, sua infindável briga com a mídia, sua relação portentosa com o misto de restauranteur e mafioso Jille Rizzo; suas bebedeiras homéricas; seu capítulo com a máfia. E muitas, muitas outras histórias que valem o livro. Aliás vale a leitura de qualquer biografia do Sinatra que você encontrar.

9 de dezembro de 2017

SINATRA-O CHEFÃO (II)

Este é o título do segundo volume da última biografia do cantor Frank Sinatra. Escrita pelo jornalista americano James Kaplan e com 1.211 páginas trata-se de uma obra prima em matéria de biografias. Lançada no Brasil pela Editora Cia das Letras em 2015 é leitura obrigatória para quem deseja entender com profundidade o que foi os Estados Unidos no Século XX. Não que o autor se arvore em sociólogo. Mas explica e prova com fatos e versões como Sinatra foi o mais significativo filho das contradições americanas do século passado. O livro mostra que ele passou por todas. Venceu todas. Mostra também como ele se tornou o maior ícone americano até nossos dias. Como diz na orelha do livro “ quando James Kaplan publicou FRANK: A VOZ, o primeiro volume de seu ambicioso projeto sobre um dos personagens centrais da cultura popular do século XX, só admiradores do artista norte-americano sabiam que estavam diante de um empreendimento majestoso”.
A história da ascensão de Frank Sinatra (1915-1998) no primeiro volume apresenta uma série de outros enredos: o nascimento da cultura de massas, a vida boemia nos cassinos e nigthclubs, o apogeu e o lento declínio do rádio, a explosão da TV e o culto à celebridade.  Nesse volume segundo Kaplan se dedica ao mito em pleno processo de entronização em “ chefão” tendo como ponto de partido sua ressureição após o Oscar ganho por seu desempenho no filme A Um Passo da Eternidade. “ Uma vida movimentada como poucas no showbiz de qualquer época: gravações de inúmeros álbuns e singles, quatro ou cinco filmes por ano, shows na TV, a fundação da própria gravadora e negócios dos mais diversificados. Surge um Sinatra cada vez implacável em suas decisões e insaciável em seus muitos apetites “ lembra o autor.
Frank Sinatra nasceu com tudo para dar errado na vida. Mesmo depois que deu certo e venceu, sua carga pesada de origem pobre e humilhante se refletiria em sua carreira e o deixaria arruinado ao final dos 40 anos de vida. Obstinado e dotado de um senso agudo para sua vida profissional consegue reerguer-se dar a volta por cima e se tornar o maior mito do showbiz mundial. Juntou num único caldeirão todo o seu talento de cantor, ator, improvisador e com muita sagacidade soube captar em que medida, onde e quando poderia usar seu talento para embevecer o publico. Aprendeu apanhando. Ao perder tudo lhe restou a voz, a possibilidade de fazer de novo e corrigir sua imensidão de erros. E assim foi.

Toda essa trajetória está muita clara e muito bem descrita no final do primeiro volume da obra de Kaplan e no começo no segundo volume. Na página 596 ficamos tendo a real importância de sua influencia. O Secretario de Imprensa da Casa Branca, Pierre Salinger ligou para ele em Palms |Springs, na Califórnia, e lhe deu em primeira mão o anuncio do bloqueio a Cuba. Um gesto que impressiona para quem havia se afastado do governo Kennedy. E é digna de atenção e nota toda a parte do livro em que o autor narra o assassinato do Presidente Kenedy. Nada indica que Sinatra esteve envolvido com o assassinato em si. Mas quanto às manobras e razões que levam ao desfecho da carreira do jovem presidente americano a narração é límpida, os fatos incontestáveis e a conclusão lógica pela leitura é digna de uma astúcia de literatura ficcionista. Os fatos estão expostos com uma propriedade assustadora. Mas Sinatra se sai bem do episódio. Quem leu ou viveu o período encontrará a resposta para aquilo que a polícia americana, por décadas, não forneceu. No livro não resta nenhuma dúvida que foi a máfia a autora do assassinato. Toda a trama está descrita em minúcias. Sua incursão pela política, primeiro foi para eleger políticos do Partido Democrata, inclusive o Presidente Kenedy. Mais tarde mudou de lado e abraçou a causa republicana ajudando a eleger seus políticos inclusive o Presidente Ronald Reagan. Se meteu com a máfia não por interesses políticos mas para colocar o pé no milionário negócio dos cassinos. Mas isso é outra história.

Ao final da leitura desse segundo volume fica-se com a convicção que o talento do Sinatra foi muito além de cantar. Triunfou nos negócios, na política, criando e moldando seu próprio nome que nunca foi FRANCIS ALBERT SINATRA. Mas morreu como tal. Ao longo da vida foi escolhendo o que mais lhe convinha para seu êxito. A partir do soerguimento de sua carreira passou a escolher seu próprio repertório, ditar como queria os arranjos musicais e quem seriam os arranjadores. Ouvia os clássicos de Bellini, Debussy, Donizeth e muitos outros de onde extraia inspirações para acrescentar nos arranjos. Criou suas empresas para distribuir seus produtos e depois vendeu-as faturando milhões de dólares.
Trata- de uma vida tão rica que merecerá mais um artigo.

30 de novembro de 2017

FRANK SINATRA- A VOZ (01)

  • Não é uma biografia qualquer. Trata-se da história, e que história, daquele que é considerado o maior personagem do Século XX. E a obra pode estar no pódio das grandes biografias contemporâneas. Soberbo é o trabalho do Jornalista americano James Kaplan nos dois alentados volumes sobre a vida do mito Frank Sinatra. Lançados no Brasil em 2013 pela Editora Companhia das Letras (www.companhiadasletras.com.br) o primeiro volume intitulado A VOZ com 747 páginas. Vai do seu nascimento em 1915 no subúrbio nova-iorquino de Hoboquem, New Jersey, até 1953 quando ele ganha o Oscar por seu desempenho no filme A Um Passo da Eternidade, interpretando o soldado Ângelo Maggio. O segundo volume (SINATRA- O CHEFÀO) mais denso e volumoso, aborda a última parte da existência do mito e vai até o ano de sua morte em 1998.
Não é um livro qualquer. São dois alentados volumes, para não dizer calhamaços. A precisão dos fatos, o teor da narrativa, o volume e a minuciosidade das pesquisas se agregam a um texto soberbo difícil de encontrar. Nada se compara em termos de qualidade e precisão em biografias do show business.  Essa obra coloca o jornalista James Kaplan no mesmo nível do pesquisador e historiador britânico Simon Sebag Montefiore, o maior historiador das últimas décadas. Kaplan revela que Sinatra foi o ser humano mais historiado dos tempos modernos. A decisão de escrever a obra ele tomou em 2004 num jantar, em Santa Mônica, na Califórnia, quando estava à mesa num grupo que todos haviam conhecido Sinatra. Todos contavam histórias sobre Sinatra que de repente lhe pareceu vivo. Na recordação dos convivas daquela noite “ havia uma visão de Sinatra como homem e artista, sem as armadilhas e os ouropéis da celebridade”. Sinatra não estava mais vivo fazia seis anos. A audácia e pertinência de Kaplan resultou numa biografia inesquecível, tal qual a vida do biografado. Em suas próprias palavras:
Ali estava um gênio e um grande artista, um homem que havia mudado – moldado- o Século XX e eu lhe devia o que ele merecia.
Não só você Kaplan. Todo o Século XX.
Ao mergulhar nas páginas desse primeiro volume o leitor descobrirá que Sinatra sempre soube o que lhe convinha, artisticamente. Na primeira parte da sua vida foi um elemento subversivo que sempre tentou minar os Estados Unidos. Seu passado de delinquente sexual, conexão com a Máfia, fuga do Serviço Militar, seu cabelo oleoso e o sobrenome italiano foi o combustível para asfaltar a estrada. No começo a América lhe tinha preconceito e desprezo. Apesar disso a audácia, a intuição e o talento fizeram a grande diferença. A descrição do autor sobre o fascínio do cantor por gângsteres, simplificavam suas complexidades e seus problemas físicos. Mas descobre-se um personagem também tolerante ao longo dos seus 83 anos de vida.
Apesar da primeira parte de sua vida ter sido extremamente trágica, desde o nascimento em Hoboquem, subúrbio de New Jersey onde a mãe era aborteira, passando por duas tentativas de suicídio, um casamento frustrado e uma desesperada paixão pela atriz Ava Gardner, o primeiro volume também é divertido. E insinuante. Onde quer que fosse sempre foi um revoltado pela forma como os negros eram desprezados e excluídos pela sociedade americana. Dedicou-se desesperadamente à leitura para entender e expressar esse pensamento. Até que lhe aparece na vida um jornalista, George Evans, lá pelos anos 40 do Século passado. Muda-lhe os hábitos e a vida. Evans se foi cedo levado por um ataque cardíaco. Mas cunhou a melhor definição sobre o mito:
Frank nasceu para ser astro. Mas também nasceu para ser uma figura controversa, e astro e figura controversa ele vai permanecer até o dia em que morrer.
Para complementar o autor agrega a esta frase uma magistral definição: … toda a vida de Frank parecia basear-se na acumulação e liberação de tensão. Quando a liberação vinha na forma de canto, era lindo; quando tomava a forma de fúria, era terrível. Trabalhar duro e cantar sem parar, noite a dentro, nunca fez mal a ele. Sua ambição era titânica. Sua disciplina incomparável.
Pois imagine alguém que entrava num palco as 10 horas da manhã e a cada duas horas repetia o show até as duas horas da madrugada. Assim foi seu começo e assim seria toda a sua vida. Imagine o Sinatra andando de ônibus e trem como crooner de orquestras. O Sinatra que não aceitava a solidão e vivia cercado de amigos. O Sinatra generoso. O filho do Jornalista George Evans ficou na sua folha de pagamento até sua morte. O Sinatra que tinha sempre um número em seus programas e shows com gente de cor. E os remunerava bem. O Sinatra atormentado pela paixão num casamento rumoroso com a atriz Ava Gardner. Todas as suas facetas desfilam pelas páginas mais como uma epopeia humana que simplesmente a vida de um artista.
A leitura nos leva a uma conclusão. Frank Sinatra personificou como ninguém as mudanças sociais e raciais dos Estados Unidos no Século XX. Essa atmosfera permeia toda a sua vida e está bem retratada nos dois volumes. A narrativa de como ele vai ao fundo do poço com a carreira arruinada próximo aos 40 anos para emergir com força total em 1953 é um primor. Sua careca, seus olhos azuis, sua estatura baixa e sua voz marcaria o Século XX como nenhum outro.
Histórias saborosas, dolorosas, criativas, de amizades, de fúria e solidão tinham parcerias com ele. Ao final da primeira fase de sua vida, comecinho de 1950 um comentário maldoso, uma piada de mal gosto sobre a amante do Samuel B. de Mayer, um dos quatro fundadores da Metro, levou-lhe o último emprego e trouxe-lhe a rua. Seria o fim. Todos acreditaram. O que levou seu agente Irwin Lazar a dizer:
- Ele morreu. Acabou. Nem Jesus Cristo conseguiria ressuscitá-lo nesta idade.
Sinatra estava próximo aos 40 anos de idade. Claro que ele não pensava assim. E só ele mesmo foi capaz de reergue-se.


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20 de outubro de 2017

Rio de Janeiro: lirismo na favela

                          
 
Durante anos, muitos anos, ou mesmo décadas, intelectuais, literatos, músicos, compositores, jornalistas e artistas em geral louvavam o morro, as favelas cariocas, em prosa, verso, músicas, contos, crônicas e romances. O verso, a prosa e a frase versavam todos sobre a doce vida no morro. A favela era lugar de beleza; de felicidade. Diziam eles. Essa turma dava o nome a isso de lirismo. Lirismo é o cacete. Aí apareceu a turma do funk e do punk e desmistificou essa história. Seus acordes, rimas e métricas tortuosas cantam a vida como ela é. Com todo o realismo cruel que os cercam.
 
Não conheço ninguém que se pudesse morar em outro lugar não caísse fora desse lirismo em instantes. Vá lá na Favela do Arará que faz parte do complexo de favelas da Barreira do Vasco no bairro de Bonsucesso, na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Vá no Morro do Chapadão, na Pavuna. Quero ver alguém achar algum lirismo ali. É dura e cruel a vida por lá. O morador convive com a autoridade do bandido e a total ausencia do Estado. O primeiro se faz presente, o segundo nem toma conhecimento.
 
Com o Estado ausente, a crueldade, a selvageria, a insensatez, a barbárie e a ferocidade com que os vagabundos dominam as favelas faz parecer um exército jihadista. Quem viu as cenas de carnificina na Rocinha, no começo do mês de outubro de 2017 quando traficantes de um grupo esfolavam inimigos de outra facção vai achar o Estado Islâmico moderado. Exagero meu na comparação? Lá como cá a violência e a fúria imperam. Um ser humano foi esfolado diante de uma câmera, seu coração e língua arrancados a faca e exibidos como troféu. A imagem chocante não foi mostrada pelas TVs. Mas na internet sim.
 
Para provar que não há diferenças entre o estado islâmico e as facções de morros da cidade do Rio de Janeiro basta recorrer à leitura do livro O ESTADO ISLAMICO- DESVENDANDO O EXÉRCITO DO TERROR, Editora Seoman- 2015 e de autoria dos jornalistas Michael Weiss, americano, ex-correspondente na cidade de Aleppo, na Síria, e editor chefe da revista Foreng Policy e do nascido em Habu Kamal e hoje cidadão londrino que trabalhou para o New York Times e é Editor do jornal inglês The Guardian, Hassan Hassan. Este livro é também um excelente manual para nossas forças de segurança. Impressiona pela coragem e pelo relato minucioso dos dois jornalistas. 
 
 
Descrevem o Estado Islâmico como “chacinadores, selvagens, agentes do caos, formados por convertidos e jihadistas cinco estrelas especializados em extorsões e recrutamento. Através da força brutal, decapitações de reféns e selvageria chocou o mundo ”. Ora bolas, eles nunca ouviram falar nos morros cariocas. São iguais.
 
 Lá como cá se dividem em facções. Lá eles buscam um objetivo comum e aqui buscam múltiplos objetivos também com a violência gratuita através da qual passam a reinar. Lá são estimulados pela fé e cobiça. Aqui pela miséria, abandono que se manifestam em assaltos, tráfico de drogas, balas perdidas, agressões, assassinatos e astúcias que se transformam em mortes de inocentes. Lá, vários exércitos os derrotam há anos. Aqui, há décadas, apenas a força da Polícia Militar os enfrentam. E os favelados só aumentam. São prisioneiros da desgraça, como nós do asfalto. Tolo aquele que acredita que o cidadão que habita as milhares de favelas do Rio de Janeiro prefere colaborar com a polícia.

16 de outubro de 2017

RIO DE JANEIRO DE FAVELAS

Em meados da década dos anos oitenta do século passado a cidade do Rio de Janeiro tinha 620 favelas. Esse foi o numero levantado pelo Comitê de campanha do então candidato a Prefeito, Deputado Federal Rubem Medina. No escritório central tínhamos um mapa com todas elas. Suas populações e suas necessidades. Que não eram poucas. A favela que era o xodó do candidato e onde ele pretendia tornar o cartão postal de sua administração, eleito fosse, era a Rocinha. Lá se vão 32 anos.

Da Rocinha incorporamos uma líder comunitária de nome MARIA HELENA. Baixinha, branquinha, olhos pequenos e negros, brilhavam e pareciam uma jaboticaba. Cabelos pretos escorridos pelos ombros, deveria ter seus trintas de idade. Lembro que era de uma vivacidade impressionante. Sabia tudo sobre a favela. Todo santo dia ela estava lá no escritório e sempre trazendo detalhes das necessidades de sua comunidade. Era um encanto de pessoa e com uma disposição para o trabalho invejável. Todo mundo gostava dela. Além disso foi ela quem nos ajudou a entrar nas outras favelas do Rio. Conheci todas. A que mais me impressionou foi a favela do Sapo na zona oeste da Cidade.

 Nunca tinha imaginado ser possível o ser humano viver num ambiente tão degradante. Ali, num certo dia de campanha enquanto o candidato conversava com os moradores fui conhecer o “ chefão “ do lugar. Era um negro baixo, forte, atarracado e com cara de mal. Tinha nascido ali mesmo. Perguntei-lhe muito sobre a vida no local. Fiquei sabendo que aquela favela, embora pequena, era estratégica. Se guardava drogas no lugar.


De lá para cá, quase 40 anos depois, o cenário não mudou. A Cidade do Rio de Janeiro tem hoje mais de mil e duzentos favelas. Habitam esses aglomerados humanos mais de dois milhões de pessoas. A favela do Sapo cresceu muito. Hoje  tem milhares de moradores e faz parte de um complexo de mais 17 favelas.

 As principais são Rebú, Cavalo de Aço, Coreia, Mobral, Vila Aliança e Favela do Morro do Chapéu.Todas no bairro de Senador Camará cuja população total bate os cem mil moradores. Nunca mais voltei lá. O Socialismo moreno passou a reger a vida das favelas. Retirou-se a repressão, proibiu-se a PM de subir os morros e deu-se um livre transito para tudo. E o Estado que nunca lá esteve jamais olhou pro lugar.


Rubem Medina perdeu a eleição para o candidato Saturnino Braga. O socialismo moreno do governador Leonel Brizola venceu e deixou um rastro de pobreza, desordem e violência na cidade. Alguns anos depois li no jornal que mataram a Maria Helena. Numa briga de facções dessas que acontecem todo dia ela se foi.



 O Estado brasileiro nunca foi de marcar presença para essas populações que passaram a conviver ou praticar  todo tipo de marginalidade. E quando acontecem crimes a PM é obrigada a dar combate. Fica exposta a todo tipo de defensoria de direitos que o socialismo moreno deixou como legado. A violência habita esses lugares com uma crueldade alarmante.


Mas se fiquei impressionado com favela do sapo foi porque não havia ainda conhecido a favela conhecida como Barreira do Vasco, hoje uma das maiores do Rio. Naquela época havia uma entrada para uma das favelas do complexo por uma das ruas do bairro de Bonsucesso, próximo ao mercado São Sebastião, a antiga CADEG. Uma pequena ponte de tábua, um passadiço, separava os dois mundos. 

Essa mesma Favela da Barreira do Vasco eu iria reencontrar alguns anos depois trabalhando em outro lugar. Os mesmos becos fétidos. Rios de lama, ratos por todas as partes infestavam as casas e os caminhos. Um cheiro horroroso de esgoto completava o quadro. E gente, muita gente, de todos os lugares, principalmente do nordeste do Brasil. Há quarenta anos o crescimento das favelas da Cidade do Rio de Janeiro era horizontal. Hoje é vertical. A favela se expandia por casas e casebres, até de papelão. Sua taxa de natalidade sempre foi maior que a do asfalto.

 contribuições:

Me escreve, do Rio de Janeiro, o jornalista Aristóteles Drummond para recordar sobre o governo Negrão de Lima, a quem ele serviu como Presidente da COHAB-GB, a companhia habitacional do governo da Guanabara. Eis um resumo do seu relato:

1  - não resisto a fazer um reparo no seu excelente artigo sobre o Rio. É que você foi injusto com Negrão de Lima , que foi até maior e melhor do que o Lacerda, que merece todas suas referencias .

    Lacerda começou a  remover favelas, oitenta por cento da Praia do Pinto, mas Negrão com excelentes relações com Castelo, Costa e Silva e Médici fez 35 mil casas populares e removeu todas as favelas da Lagoa, como Catacumba, Pedra do Baiano; onde esta o Shopping Leblon; Macedo Sobrinho, onde tem um CIEP na Rua Humaitá; a Piraquê, ao lado do Clube e ao longo do muro do Jockey e da pista conhecida até então como Belém-Brasília . E eu com 24 anos fui o diretor da COHAB a fazer estas mudanças. Até meus 25 anos exerci a Presidência da COHAB-GB. Por falta de sorte do Rio, 18 mil das 35 mil casas ficaram prontas no governo Chagas Freitas que optou por parar com as remoções e distribuir as casas para apadrinhados do bloco político Chagas Freitas que eram muitos.

E a Avenida Atlântica? Quem teve peito de alargar, com o Lacerda dizendo que o mar iria buscar tudo de volta? E os acessos a Barra da Tijuca -Zuzu Angel, Lagoa -Barra e os elevados? Só não quis brigar com a PUC e a passagem atual foi o Chagas Freitas que fez.

E a segunda fase do Guandu, que ele continuou e manteve a equipe do Lacerda? E a recuperação do BEG ( Banco do Estado da Guanabara) entregue ao Dr Bulhões (Otávio Gouveia de Bulhões) que colocou lá o Carlos Alberto Vieira. Um garoto.

Apoiado pelas esquerdas sim, mas governou com a direita. Quem era secretario forte? Nosso - da direita - saudoso Cotrim Neto, jurista de direita e integralista sempre, Carlos Costa, sobrinho do Adroaldo Costa, Procurador Geral do Costa e Silva; o presidente da Assembleia Legislativa Augusto do Amaral Peixoto. O Negrão foi hábil, era cordial, amigo do Clube dos Repórteres Políticos e por aí vai."

2- De Brasília e Campo Grande, Mato Grosso do Sul me escrevem os jornalistas Cezar Motta e Carlos Eduardo Bortolot, o querido Cadú. Ambos, nessa ordem, me corrigem na data da campanha de prefeito em que o ex-deputado Rubem Medina foi candidato: foi em 1985 e não 1982 como escrevi.

3- E todos eles, inclusive o grande médico carioca Pedro Henrique Paiva me escreve e me recorda a grande frase com o que o humorista Millôr Fernandes brindou o fim da desastrada administração do socialismo moreno.

3 de outubro de 2017

RIO: DE JANEIRO A JANEIRO

A cidade do Rio de Janeiro é o melhor exemplo que conheço, porque vivo, de como uma cidade se degrada. Por mais de cinquenta anos assisto, dolorosamente, seu esfacelamento e sua deterioração. E o que é pior: com a estrita colaboração do poder publico. A cidade é agredida de todo lado. Já ouvi de um carioca:

   fazem de tudo para acabar com o Rio de Janeiro. Mas a cidade resiste.

E como resiste. Vai longe o ano de 1982 quando participei de uma campanha política para prefeito da cidade. Os principais candidatos eram o ex-deputado federal Rubem Medina, então no PFL (Partido da Frente Liberal- PFL) e o ex-senador Saturnino Braga pelo PDT (Partido Democrático Trabalhista- PDT) do então governador Leonel Brizola. Eu estava na campanha do primeiro. Rubem Medina não era, na época, uma das estrelas do Congresso Nacional. Mas sempre chegou lá com votações retumbantes, expressivas. Tinha a seu favor a história de amor pelo Rio herdada de seu pai (Abram Medina um empresário que encarnou como ninguém o espirito aberto, acolhedor, alegre e liberal do carioca. De sua iniciativa nasceram grandes eventos que o consagraria como o grande empreendedor do então Estado da Guanabara) e encarnada hoje por seu outro filho, o Roberto Medina. Esse mesmo do Rock in Rio, cuja história merece um livro.

Roberto Medina era o chefe da campanha. Detalhista, arrojado, cuidadoso e transformador. Dirigia a Artplan, outro capítulo da história de amor pelo Rio da família Medina. O Roberto debruçou-se sobre o orçamento municipal por dias e dias. Dali nasceu um plano de campanha invejável e exequível sem ajuda de terceiros.

Lembro, entre outras iniciativas a previsão de um posto de saúde em cada bairro. Um deslumbrante planejamento urbano e iniciativas modernas na área de educação, na área de lazer, de limpeza urbana, de saneamento e habitação junto a um calendário de iniciativas turísticas articuladas com o que melhor possuíamos para gerar empregos e renda durante todo o ano. Era algo novo e criativo. Deslanchamos a campanha com o Rubem Medina na dianteira das pesquisas. Até que....

O adversário tinha o velho discurso ideológico da esquerda carioca e apresentava nos debates um programa populista de apoio à pobreza e redenção da miséria. Com o orçamento publico. Não detalhava nada. Mas acenava como um messias, salvador, chegando nos morros com uma tábua salvadora. Habitação para todos sem detalhar como e quanto custaria. E teve mais: o apoio incondicional do governador Leonel Brizola. Como decolava nas pesquisas e o adversário não o alcançava nos debates e ideias inovadoras, Brizola, uma raposa política habilidosa e criativa entrou na campanha como se fora ele o candidato a prefeito. Destruiu o Rubem Medina em dias.

 Mesmo com a verve do candidato a vice-prefeito, o inigualável jornalista Sebastião Nery, oriundo das hostes brizolistas, a campanha do Rubem Medina não se sustentou. Saturnino Braga seria o eleito com uma vitória retumbante. Tinha como como seu vice o Jô Resende um agitador de ruas focado no Sistema Financeiro da Habitação, SFH, o sistema de então que financiava habitações para a classe média. Anos depois foi tragado num escândalo. Um desses que assola a política brasileira, e desapareceu para nunca mais.

Derrotados e desiludidos com a escolha do carioca (Saturnino Braga é oriundo de Niterói e fez carreira política no antigo Estado do Rio de Janeiro sob as bênçãos do ex-senador Amaral Peixoto) a equipe de campanha se dissolveu e cada um seguiu seu rumo. Depois do Carlos Lacerda foi a primeira grande chance que o Rio de Janeiro teve de uma administração coerente com a história da cidade. A vitória do Saturnino Braga sepultou uma plataforma de onde se originaria um futuro pujante para a Cidade Maravilhosa. No meu ultimo encontro com os irmãos Medina, juntos, cunhei uma frase feita de mal gosto. Disse aos dois:

   o Rio de Janeiro vai chorar lágrimas de sangue com a vitória do Saturnino.

Me olharam espantados. Eu parti e nunca mais os vi. Saturnino Braga não terminou sua gestão. Renunciou antes do final do mandato por incompetência e toda sorte de desmandos, falcatruas e má administração. A imagem do seu governo que ficou foi a do lixo acumulado nas ruas fétidas que sua administração produzia.

 Rubem Medina, acostumado a eleições com votações expressivas para a Câmara Federal nunca mais repetiu esse feito. Muitos anos depois foi Secretário de Turismo de um dos governos Cesar Maia. Mas os tempos eram outros. A cidade era outra. E ele já não tinha o brilho de outrora. Se retirou da política com uma votação pífia em sua despedida.


            Mas seu irmão, o Roberto Medina continua na ativa. Hoje é o homem em quem milhões de cariocas e brasileiros veem com orgulho. Entre outras grandes realizações é o homem do Rock in Rio. Nunca desistiu da cidade. Quem desistiu da cidade foi seus próprios moradores. Anos depois os mesmos eleitores cariocas, junto aos da baixada fluminense, premiaram com outra vitória retumbante o mesmo Saturnino Braga, com um mandato de Senador pelo mesmo PDT do Estado. Vai entender essa gente.

E de lá para cá a cidade nunca mais foi a mesma. As lágrimas de sangue escorrem por sua pobreza, pelas ruelas de suas favelas, pelos caminhos de milhões de crianças sem futuro e pelo grito de dor das vítimas de balas perdidas. E das balas certeiras dos assaltos. Esta semente desastrada de um Estado caótico governado por um tipo de gente enganadora foi plantada por Saturnino Braga e Leonel Brizola. E vingou. Nas águas desse Rio de Janeiro corre muitas outras histórias dolorosas. Sua gente se ilude ou é enganada a cada eleição.  
   



26 de setembro de 2017

Rio de Janeiro e a Gunabara



A desgraça do Rio de Janeiro vem de longe. Muito longe. Seus mais de 100 policiais mortos em combate nesse ano de 2017 é um retrato, trágico e incompreensível, de uma das faces da realidade cruel da outrora Cidade Maravilhosa. Vivemos hoje numa cidade e num Estado que quase nada funciona direito. A Polícia é a instância mais recorrida pelos moradores. Aqui se chama a polícia para tudo. Um soldado da PM é sobretudo um especialista em gente. O carioca se socorre dela para fazer parto, separar briga de vizinhos, coibir abusos de comportamento, de falta de educação, para retirar casa de abelhas, de maribondos e até socorro a velhos, inválidos e animais. Trocar tiros com bandidos é apenas uma de suas missões diárias. Quer saber mais? Busque uma pesquisa de um dia no número 190 o telefone de socorro policial posto a serviço da população.

Essa dura realidade é a foz de um caudaloso Rio de problemas. Foi uma cidade maravilhosa até os anos setenta do século passado. A desgraça começa no governo Juscelino Kubistchek. Ele construiu Brasília e levou a sede do governo federal. O Rio de Janeiro era uma cidade Estado. Como Singapura. Fácil de governar, compreendia apenas o Estado da Guanabara. Cercada de praias e montanhas foi o cenário perfeito para políticos, poetas, intelectuais, artistas, pintores, escritores, vagabundos e putas. Toda essa malta constituía a mais fina flor da cultura nacional. A Guanabara era o centro irradiador de uma fulgurante constelação de inteligência e assim permaneceu após a saída do governo federal. O Governo se foi sem um planejamento de longo prazo para a cidade. Não houve prazos para tirar o estamento burocrático federal do Rio de Janeiro. Aqui ele permaneceu e ainda hoje se encontra fragmentos dessa casta. Mas o orçamento gordo da Republica foi embora.

Ainda daria sorte o Estado da Guanabara. Em sua primeira eleição venceu a figura excêntrica do jornalista Carlos Lacerda. De repórter, comentarista e jornalista político acabou se transformando no maior administrador urbano que o país já viu. Em poucos anos rasgou a cidade com obras monumentais que não só trouxe conforto e progresso para a população como beleza, estética e elegância para um cenário deslumbrante. Removeu favelas inteiras e criou parques fascinantes. Dotou a cidade de um sistema de abastecimento de água que ainda hoje socorre sua população. A cidade se bastava. Jorrava alegria e cultura. Lacerda saiu do governo endeusado. Sonhava ser candidato a Presidente da Republica. Deixou no cargo o seu vice o brilhante advogado Raphael de Almeida Magalhães, esse outro vulcão em inteligência e amor à cidade. Coube a ele arrematar o que Lacerda empreendeu. Foi Lacerda quem trouxe um grego chamado Doxiades, o mais respeitado arquiteto urbano da época. Este senhor redesenhou a Cidade e criando as linhas com nomes de cores que dão ao Rio de hoje maior espaço de movimentação urbana. Até os sucessivos governos não terminaram o plano.

Aí veio 1964 Lacerda foi cassado, Juscelino também e a Guanabara passou a ser governada pelo diplomata Negrão de Lima. Vai entender essa gente... Negrão foi eleito contra o candidato de Carlos Lacerda, o professor Flecha Ribeiro. Aquele que tudo fez para tornar o Rio moderno não conseguiu fazer o seu sucessor. Negrão de Lima fez um governo elegante e burocrático tal qual sua figura. Mas era apoiado pela esquerda. Daí fortaleceu o mito e a corrente de pensamento ideológico que iria dominar o pensamento e a cultura da cidade após 1964. Depois disso vem os militares com a Revolução. Até o final do governo Médici a Guanabara brilhava no cenário nacional. Não por questões ideológicas, mas os militares através do Presidente Ernesto Geisel é quem vai plantar a semente e pavimentar o caminho para o caos. Isso fica para depois.

O RIO DE JANEIRO POR ALDO REBELO

 Vasculhando meus alfarrábios em busca de dados sobre a cidade do Rio de Janeiro, descobri numa montanha de papeis algo escrito pelo Deputado Federal Aldo Rebelo numa revista do Instituto de Estudos Ações Sociais da saudosa Univercidade, o Centro Universitário que tinha cara da Cidade. Não conheço o Deputado Rebelo. Apenas sei que se trata de um comunista, essa coisa mofa e adequadamente utilizada para desgraçar grupos e países.

Mas o Deputado Rebelo, dizem que é fino no trato, polido no comportamento, elegante na forma e arguto nas ideias. Pelo que encontrei atesto que é verdade. É primoroso o artigo escrito pôr ele e publicado na revista IDEAS. Lá se vão cerca de vinte anos. Para quem não sabe e hoje vive a estarrecedora realidade de um uma cidade sem Lei, com células de verdadeiro Califado Islâmico em cada canto da Cidade vai aqui um retrato do que já foi o Rio de Janeiro.Com a palavra o Deputado:

-permitam-me focalizar o Rio de Janeiro como símbolo nacional. Nenhum lugar do País tem sido tão mal observado, destratado e tão negativamente citado quanto a Cidade Maravilhosa. Expressão forjada pelo poeta Coelho Neto, em 1908, para retratar o urbanismo civilizador do prefeito Pereira Passos, e transformada pelo compositor André Filho no hino que o povo canta chamando o Rio de “ coração do meu Brasil”.

Se Paris é o segundo lar dos cidadãos do mundo, ponto de passagem e têmpera de inovadores como Karl Marx e Ho Chi Mim. O Rio é a segunda cidade de todo brasileiro que não teve a ventura de nela nascer. Qual a origem do seu poeta Coelho Neto? Saiu da mesma Caxias do Maranhão de onde veio outro carioca honorário, o nativo Gonçalves Dias.

Assim como vieram os baianos Assis Valente e Glauber Rocha, os alagoanos Floriano Peixoto e Graciliano Ramos, os paraenses Serzedelo Correa e Eneida, o cearense José de Alencar, os pernambucanos João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freire, os mineiros Ary Barroso Darci Ribeiro, o mato-grossense Marechal Rondon, os paulistas José Bonifácio e Cândido Portinari. E todos vieram pela simples e decisiva razão de ser o Rio a caixa de ressonância da Nação.

Nada de importante aconteceu no Brasil sem passar pelo Rio – a começar das primeiras lutas de afirmação territorial e combate aos espoliadores estrangeiros, a exemplo das notáveis campanhas de Martin Afonso de Souza e Estácio de Sá contra os franceses, que desde o Descobrimento planejaram implanta aqui sua França Antártica.

No Rio de Janeiro José Bonifácio arquitetou a Independência, gigantes como José do Patrocínio conquistaram a Abolição, Floriano Peixoto consolidou a República, Getúlio Vargas amarrou seu cavalo no obelisco para deslanchar a renovadora Revolução de 30.

Permitam-me celebrar o Rio do Samba, da Bossa Nova, o Rio que inaugurou a cultura universitária, o Rio centro político e operário, motor da maior campanha nacionalista de massas de nossa história, a d’O Petróleo é Nosso, o Rio sincrético de São Sebastião num templo e Oxóssi noutro, o Rio valente em Araribóia, altivo em João Cândido, melodioso em Noel Rosa, áspero-poético em Euclides da Cunha, elegante em Vilma da Portela, o Rio de Janeiro da hipnótica bruxaria literária bordada por Machado de Assis no Cosme Velho, o Rio que se retrata e resume o Brasil nas mulatas curvilíneas de Di Cavalcante, o Rio que se perde e se encontra nas pernas tortas de Garrincha, o Rio que deslumbrou estrangeiros acostumados á inteligência e à beleza como Charles Darwin, Luís Agassiz, Debret, Rugendas, não se deixando de lado o registro de Caetano Veloso de que “ o pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara, o compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela” , o Rio onde mais bem se fala a língua portuguesa do Brasil, o Rio que a despeito das adversidades permanece gentil e solidário, o Rio, afinal que, por tudo isso é a prova de que até o Criador tem seus protegidos.

Pois é. Deixando de lado o texto do Deputado e voltando ao meu traço, tudo isso pertence ao passado. Tem muito mais, ou teve muito mais a Cidade. E ainda tem. Está aí o Rock in Rio do talentoso Roberto Medina para enriquecer o presente. Sabe Deus como. Mas tudo isso virou um inferno de uma cidade dominada por bandidos e governada por ineptos. Pobre Rio de Janeiro.

20 de setembro de 2017

REMÉDIOS E FARMÁCIAS



 Esse setor reflete muito bem a imagem do Brasil. Pujante, com faturamento de fazer inveja aos grandes grupos financeiros internacionais. É possível que seja o setor que mais cresce na economia brasileira, apesar da crise. Deve estar movimentando mais dinheiro que a indústria de telefonia e afins. São bilhões e bilhões. Com o devido apoio e olhos fechados da ANVISA. Esta, a Agencia Reguladora de Vigilância Sanitária que cuida do setor. O negócio é tão bom, tão bom que farmácia hoje é um negócio controlado por bancos e grandes grupos de investimentos. As margens de lucro são de fazer inveja a qualquer outro setor da economia brasileira. A Agencia Reguladora parece não regular nada. Quase nada produz que beneficie o consumidor. Ela é o exemplo perfeito e acabado de que o Estado brasileiro necessita de uma reforma muito mais profunda do que apenas uma reforma do governo.
 

Em 3 de maio de 2017 entrei numa farmácia PAGUE MENOS na avenida Nossa Senhora de Copacabana, numero 471, no Rio de Janeiro. Paguei R$ 130,00 (cento e trinta reais) por um remédio cuja substancia é conhecida no mercado como MIRTAZAPINA. Não é um remédio qualquer. Diz na caixa que é fabricado em Salt Lake City, uma cidade do meio oeste americano, pela ANESTA LLC. Diz ainda que é importado pela empresa Schering Slough, Indústria Farmacêutica Ltda. e embalado no Brasil pela empresa Merck Sharp e Dohme Farmacêutica, em Campinas, Estado de São Paulo.


Cheguei em casa abri a caixa. Tirei uma das cartelas e abri o primeiro comprimido. Estava esfarelado. Estranhei mas abri o segundo. Abri o terceiro, o quarto e a cartela toda. Todos esfarelados. Um dia depois voltei na farmácia com a nota fiscal em punho. Pedi para falar com a farmacêutica responsável. Expliquei-lhe a situação. Com olhos de quem duvidava ela pegou uma das cartelas e apertou com cuidado. Pedi-lhe que abrisse. O remédio era meu e estava pago. Abri com ela toda a cartela. Estava também toda esfarelada. Pedi-lhe que trocasse a caixa. Ela me devolveu e disse o inimaginável:


- Sinto, mas nada posso fazer. Nós apenas vendemos. Não somos responsáveis pelo produto. A farmácia não se responsabiliza por nenhum remédio vendido. O senhor liga para o SAC (o serviço de atendimento ao consumidor) no telefone que está na caixa e reclama.


Foi a primeira vez que vi o vendedor não ser responsável pelo que vende. Liguei para o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) da Merck. A atendente quis saber o lote, o numero da caixa, onde comprei e mais outras perguntas. Já estava achando que eu era o culpado. Ao final me informou que não trocava produtos. Iria mandar um portador recolher a caixa no meu endereço e me devolveria a quantia a paga. Que eu aguardasse. Espero até hoje. Perdi meu dinheiro e não tive o remédio. Pois além disso a farmácia reteve a receita médica.


Calma. Esse não é o único dos meus absurdos no setor. Faço uso de uma pomada de nome nitrato de isossondina. Sei apenas que era fácil adquiri-la nas farmácias de manipulação. Depois de algum tempo virou um produto controlado, proibido a venda sem receita médica. Me informei a respeito. Não encontrei ninguém que me desse uma explicação lógica. Até que meu médico fez uma pesquisa e descobriu que a matéria básica da pomada era um componente de onde se faz outro remédio, de nome isordil. Esse para o coração e é comprado em qualquer farmácia sem nenhum receituário. Ficou tão espantado quanto eu com o controle daquela medicação. Ordens da ANVISA.


Durante décadas usei para queimaduras e afins uma inocente pomada chamada  unguento picado de butesin. Eu e a torcida do Flamengo. Bastava ir na farmácia e compra-la. Era o melhor para queimaduras. Pois a ANVISA baniu esse medicamento do mercado. Foi substituída por uma outra chamada SULFADIAZINA DE PRATA. Só que controlada. Sua venda só é possível mediante receita médica. Perguntei a razão para o farmacêutico. Disse-me que contém matéria prima do antibiotico. Ordens da ANVISA.


É difícil encontrar uma farmácia que faça a medição da pressão. Muitas cobram. Encontrei uma no Rio de Janeiro que só afere a pressão arterial na casa do cliente nas redondezas. Por isto cobra R$ 15,00 ( quinze reais). Deveria ser obrigatório toda farmácia oferecer o serviço de aferição de pressão arterial para os clientes. Afinal é do negócio. Assim como a aplicação de injeções. Como já foi um dia, antes da ANVISA.

11 de setembro de 2017

ELETROBRÁS: PRIVATIZAÇÃO À BRASILEIRA? NÃO!

Com a Eletrobrás o governo tem a chance de realizar uma operação séria e vantajosa para o país. Como a Inglaterra fez ao privatizar suas empresas estatais. Lotes mínimos, em pequenas quantidades, para que a população possa participar e lote máximos, definidos, para que os de sempre não se favoreçam. Administração profissional por indicações de assembleias de acionistas. Essa deve ser a regra básica. As privatizações das empresas estatais brasileiras nos governos FHC e na era petista são de triste memória. E franco prejuízo para os contribuintes. 

Algumas delas foram realizadas sob  ações duvidosas ( criminosas?) que geraram inclusive processos na justiça. Se juntarmos empréstimos, favores, elisão e renuncia fiscal de nossos governos para o elenco "privatizado" o rombo final será maior que o atual déficit fiscal do Brasil. O melhor exemplo é a OI. A maior Tele do país foi entregue, escancaradamente, para um grupo "selecionado"  pelo governo brasileiro de então. Pouco tempo depois, já sob a era petista ela dobrou de tamanho. Como a Lei não permitia, o governo Lula fez outra Lei e possibilitou  que a Brasil Telecom fosse comprada " pela OI. Maior ainda ela se tornou. Maior ainda foi o financiamento estatal. Toda essa trama um dia foi parar na justiça e tudo acabou sossegado. Menos para o contribuinte. 

A "privatização " da Vale no mercado considerada um sucesso é questionável quando se olha para seu quadro acionário. O governo ainda é o maior acionista. Dos cofres do BNDES saíram bilhões para essas tenebrosas transações. Somados a perdões e firulas fiscais muitos outros bilhões. Tudo saiu do bolso do contribuinte. Que vantagem ele teve nisso? nenhuma. A cada privatização a justificativa é rombo nas contas publicas, preços e serviços melhores para os consumidores e serviço eficiente. Nada disso acontece. No caso das Teles, essas companhias se transformaram em empresas de internet. O brasileiro não sabe. Continua pagando uma das telefonias mais caras do globo. Ineficientes, ineficazes e temos uma das piores e mais caras bandas largas do mundo. No caso da Vale a maioria acionária pertence aos fundos de pensões administrados pelo governo e grande parte deles deficitários, quebrados.

O exemplo da OI serviria para escrever um compêndio. Os envolvidos, ou " novos  donos " , sugaram essa empresa enquanto puderam. Foram saindo devagarinho e aos poucos, por arranjos societários, pularam fora do barco. Sem nenhuma reação da sociedade ou do governo e do Congresso. Pilharam, malversaram e depois a entregaram de volta. Só não está explicitamente nas mãos do governo em razão de outras firulas, jeitos e arrumações jurídicas realizadas que permitiram uma intervenção. A situação dela é tão calamitosa que grupos estrangeiros vacilam em assumir seu passivo e seu comando. O atual governo não tem, pelo menos de publico, uma solução conhecida. E o consumidor continua pagando a conta.

Nem é preciso rememorar as "privatizações " do governo Dilma. Basta o exemplo dos aeroportos. Escolheu-se o parceiro, quase sempre os mesmos, de preferência empreiteiras ou grupos financeiros. Estes foram no exterior, buscaram empresas administradoras de aeroportos que assumiram uma porcentagem mínima das ações (coisa de no máximo cinco por cento) para repasse de tecnologia. Sob administrações temerosas projetaram aeroportos gigantescos, caros e pouco eficientes  com o dinheiro do BNDES. Agora estão devolvendo.

Todos os donos de aeroportos, brasileiros, estão investigados ou presos na Lava Jato. A conta é do contribuinte via BNDES. O aeroporto do galeão, no Rio de Janeiro só funciona o terminal 01. Viracopos em Campinas é um assombro. Super dimensionado, corredores intermináveis sem esteiras rolantes ou trem interno. Que o digam passageiros que são obrigados a longas caminhadas com bagagens nas costas. Quase nunca se encontra carros elétricos para o transporte , e sua estrutura, metade ou mais, está ociosa. Não há como se sustentar sem a mão do Estado.

Agora o governo anuncia a transferência do controle dessas administradoras para empresas chinesas. Essas mesmas empresas chinesas estão comprando participações acionárias nas empreiteiras brasileiras. As empreiteiras permanecem com o mesmo nome, os acionistas brasileiros permanecem e ainda embolsam uma bolada. Muito estranhos esses chineses. Mas não jogam dinheiro fora. Isso sem contar com as " privatizações " das linhas de transmissões da energia gerada pelas usinas estatais.

Esse é outro buraco negro. A maior parte da recente ajuda do governo, aprovada pelo Congresso Nacional (sessenta e dois bilhões de reais) ajudou a turma da transmissão. Envolvidas num cipoal de leis, normas, regulações e procedimentos que o grande publico não entende esse setor navega sob águas turvas e sorve bilhões de reais pagos pelo consumidor. O  atual rolo é uma herança deixada pelo governo Dilma. Como nada é muito claro estamos a ler nos jornais agentes do governo atual criticando o governo passado. Certo ou errado essa dinheirama foi uma das causas do atual déficit publico. E saiu do bolso do contribuinte. Engraçado nisso tudo é o fato de apenas o governo  federal reclamar. Nem o consumidor, nem os agente públicos e privados das geradoras e transmissoras reclamam nada. Apenas a Eletrobrás e o Ministro da Fazenda. É preciso muita fiscalização para a Eletrobrás não ir parar nas mãos dessas mesmas turmas. Elas costumam ganhar sempre. E sempre contam com a ajuda do Congresso, da Agencia Reguladora de Energia  e do CADE.