11 de setembro de 2017

ELETROBRÁS: PRIVATIZAÇÃO À BRASILEIRA? NÃO!

Com a Eletrobrás o governo tem a chance de realizar uma operação séria e vantajosa para o país. Como a Inglaterra fez ao privatizar suas empresas estatais. Lotes mínimos, em pequenas quantidades, para que a população possa participar e lote máximos, definidos, para que os de sempre não se favoreçam. Administração profissional por indicações de assembleias de acionistas. Essa deve ser a regra básica. As privatizações das empresas estatais brasileiras nos governos FHC e na era petista são de triste memória. E franco prejuízo para os contribuintes. 

Algumas delas foram realizadas sob  ações duvidosas ( criminosas?) que geraram inclusive processos na justiça. Se juntarmos empréstimos, favores, elisão e renuncia fiscal de nossos governos para o elenco "privatizado" o rombo final será maior que o atual déficit fiscal do Brasil. O melhor exemplo é a OI. A maior Tele do país foi entregue, escancaradamente, para um grupo "selecionado"  pelo governo brasileiro de então. Pouco tempo depois, já sob a era petista ela dobrou de tamanho. Como a Lei não permitia, o governo Lula fez outra Lei e possibilitou  que a Brasil Telecom fosse comprada " pela OI. Maior ainda ela se tornou. Maior ainda foi o financiamento estatal. Toda essa trama um dia foi parar na justiça e tudo acabou sossegado. Menos para o contribuinte. 

A "privatização " da Vale no mercado considerada um sucesso é questionável quando se olha para seu quadro acionário. O governo ainda é o maior acionista. Dos cofres do BNDES saíram bilhões para essas tenebrosas transações. Somados a perdões e firulas fiscais muitos outros bilhões. Tudo saiu do bolso do contribuinte. Que vantagem ele teve nisso? nenhuma. A cada privatização a justificativa é rombo nas contas publicas, preços e serviços melhores para os consumidores e serviço eficiente. Nada disso acontece. No caso das Teles, essas companhias se transformaram em empresas de internet. O brasileiro não sabe. Continua pagando uma das telefonias mais caras do globo. Ineficientes, ineficazes e temos uma das piores e mais caras bandas largas do mundo. No caso da Vale a maioria acionária pertence aos fundos de pensões administrados pelo governo e grande parte deles deficitários, quebrados.

O exemplo da OI serviria para escrever um compêndio. Os envolvidos, ou " novos  donos " , sugaram essa empresa enquanto puderam. Foram saindo devagarinho e aos poucos, por arranjos societários, pularam fora do barco. Sem nenhuma reação da sociedade ou do governo e do Congresso. Pilharam, malversaram e depois a entregaram de volta. Só não está explicitamente nas mãos do governo em razão de outras firulas, jeitos e arrumações jurídicas realizadas que permitiram uma intervenção. A situação dela é tão calamitosa que grupos estrangeiros vacilam em assumir seu passivo e seu comando. O atual governo não tem, pelo menos de publico, uma solução conhecida. E o consumidor continua pagando a conta.

Nem é preciso rememorar as "privatizações " do governo Dilma. Basta o exemplo dos aeroportos. Escolheu-se o parceiro, quase sempre os mesmos, de preferência empreiteiras ou grupos financeiros. Estes foram no exterior, buscaram empresas administradoras de aeroportos que assumiram uma porcentagem mínima das ações (coisa de no máximo cinco por cento) para repasse de tecnologia. Sob administrações temerosas projetaram aeroportos gigantescos, caros e pouco eficientes  com o dinheiro do BNDES. Agora estão devolvendo.

Todos os donos de aeroportos, brasileiros, estão investigados ou presos na Lava Jato. A conta é do contribuinte via BNDES. O aeroporto do galeão, no Rio de Janeiro só funciona o terminal 01. Viracopos em Campinas é um assombro. Super dimensionado, corredores intermináveis sem esteiras rolantes ou trem interno. Que o digam passageiros que são obrigados a longas caminhadas com bagagens nas costas. Quase nunca se encontra carros elétricos para o transporte , e sua estrutura, metade ou mais, está ociosa. Não há como se sustentar sem a mão do Estado.

Agora o governo anuncia a transferência do controle dessas administradoras para empresas chinesas. Essas mesmas empresas chinesas estão comprando participações acionárias nas empreiteiras brasileiras. As empreiteiras permanecem com o mesmo nome, os acionistas brasileiros permanecem e ainda embolsam uma bolada. Muito estranhos esses chineses. Mas não jogam dinheiro fora. Isso sem contar com as " privatizações " das linhas de transmissões da energia gerada pelas usinas estatais.

Esse é outro buraco negro. A maior parte da recente ajuda do governo, aprovada pelo Congresso Nacional (sessenta e dois bilhões de reais) ajudou a turma da transmissão. Envolvidas num cipoal de leis, normas, regulações e procedimentos que o grande publico não entende esse setor navega sob águas turvas e sorve bilhões de reais pagos pelo consumidor. O  atual rolo é uma herança deixada pelo governo Dilma. Como nada é muito claro estamos a ler nos jornais agentes do governo atual criticando o governo passado. Certo ou errado essa dinheirama foi uma das causas do atual déficit publico. E saiu do bolso do contribuinte. Engraçado nisso tudo é o fato de apenas o governo  federal reclamar. Nem o consumidor, nem os agente públicos e privados das geradoras e transmissoras reclamam nada. Apenas a Eletrobrás e o Ministro da Fazenda. É preciso muita fiscalização para a Eletrobrás não ir parar nas mãos dessas mesmas turmas. Elas costumam ganhar sempre. E sempre contam com a ajuda do Congresso, da Agencia Reguladora de Energia  e do CADE.

16 de agosto de 2017

RIO DE JANEIRO SEM DINHEIRO

O Estado do Rio de Janeiro vai mal.Todos sabemos.O que muita gente não sabe é a dimensão da falta de administração e autoridade nos seus diversos setores. Dilacerado pela violência urbana, potencializada por uma administração governamental acéfala, incompetente e omissa, o que mais aparece é a questão da segurança publica. São as balas perdidas dos embates entre as gangues de bandidos nos morros ou com a polícia que mesmo com salários atrasados ou pagos parcelados, arduamente tenta cumprir seu dever.

Nas ruas cariocas e fluminenses, pessoas são também atingidas pelas balas certeiras dos assaltos nos sinais de transito e nas esquinas das cidades. A questão da segurança é a que sobressai. E com razão. São vidas humanas que desaparecem sem nenhuma reação. Mas o governo do Estado é acéfalo também em todas as outras áreas sob sua responsabilidade. E não é só a falta de recursos financeiros. Trata-se de uma terrível mistura de leniência, corrupção, ineficiência, negligência e desrespeito ao cidadão.

Vejamos: por mais de trinta dias tentei contato telefônico com a CEG ( Companhia Estadual de Gaz) que oficialmente se chama Gaz Natural Fenosa, onde o telefone de contato, o único ( 40323938) está sempre ocupado.Vazava gaz na minha casa. Depois de trinta dias, mais ou menos, consegui que me atendessem. Fiz a reclamação e me prometeram enviar um representante para fazer orçamento. Em agosto de 2016 havia passado pelo problema quando tive de fazer gastos de mais de mil reais para o conserto. Em menos de um ano o vazamento voltou a ocorrer.

E me pus a esperar pela tal visita de um técnico credenciado pela empresa. Foi mais de um mês à espera. Liguei outra vez. Foram no endereço errado. Mais uma vez outra data foi marcada. Ninguém apareceu. Mais uma daquelas ligações cansativas e três meses depois, após a quarta chamada a partir do primeiro contato, marcaram a visita. Nos tres dias que antecederam fui bombardeado por ligações da CEG com assuntos os mais diversos possíveis. Tentei argumentar que o serviço fora feito no passado por uma determinada empresa e que gostaria que o novo serviço fosse feito pela mesma empresa.Fui informado que havia mais de quinze empresas prestando serviços para a Companhia e não poderiam atender à solicitação.

Em cada ligação, no começo e no final da chamada o consumidor é obrigado a ouvir uma xaropada de minutos de loas à empresa e seus serviços. E se repetem. Isso sem contar a espera pelo atendimento. Nunca foi menos de dez minutos. E por quatro meses fiquei sem o gaz. Em cada ligação um protocolo de números intermináveis. Foram quatro. O resumo da ópera é que fiquei sem gaz por quatro meses. Em menos de um ano. Em cada dia determinado pela CEG uma pessoa deve ficar em casa todo o dia à espera que eles apareçam. Ainda bem que o operário não tem gaz encanado em casa. È de bujão. Perderia em emprego. Essa companhia faz do da cidade do Rio de Janeiro a campeã em acidentes com o produto.

Assim com essa técnica medieval e sem pressa funciona a tal Fenosa. Mas o governo do Estado do Rio de Janeiro tem uma Agencia Estadual de Energia. Dizem que é só para inglês ver e para deputados estaduais indicarem apaniguados Na prática ela serviria para regular as relações e os procedimentos também da companhia do gaz. Seria o orgão fiscalizador. Para descobrir seu telefone recorri à Internet. Lá constam informações defasadas de endereço e telefone. Sem fiscalização e com tais práticas a companhia do gaz vai navegando ao seu bel prazer. Cobra quanto quer e seus serviços não merecem uma garantia de um ano se quer. Vou reclamar ao Bispo, como se dizia antigamente.

Por certo não basta o exemplo pessoal para atestar a atual situação catastrófica por que passa o Estado do Rio. Existem outros indicadores. Segundo o Clube dos Diretores Lojistas, o CDL, 914 lojas foram fechadas em junho na Cidade do Rio de Janeiro. Em todo o Estado do Rio cerraram as portas 2.062 lojas. Isso mesmo: duas mil e sessenta e duas lojas fecharam as portas somente no mês de julho. Na segunda cidade mais importante do Estado, Niteroi, segundo o Sindicato dos Lojistas do Comércio,o SINDILOJAS, mais de cem lojas de rua foram fechadas no mês de julho de 2017. Nessas estão inclusos 12 restaurantes. De acordo com seus diretores não é só a crise econômica a causadora dessa desgraça. É também a violência urbana.

Ainda na cidade do Rio de Janeiro, um ano após a realização das olimpíadas quando a cidade recebeu centenas de milhares de turistas de todos os cantos do mundo o Rio de Janeiro hoje é uma lástima diante da queda nas atividades no setor turístico. Quatro hotéis, internacionais, da Barra da Tijuca, zona oeste da cidade, têm bloqueados andares inteiros. Fechando quartos e reduzindo o número de empregados. O turista sumiu. Segundo dados da Associação Brasileira dos Hotéis do Estado do Rio de Janeiro (ABIH-RJ) o mês de julho ocupou apenas 40 por cento da capacidade hoteleira da cidade. Não é o que acontece com os hospitais, Todos lotados com familiares levando doentes para casa.

Na educação outra tragédia: professores sem salários, escolas publicas como a Universidade Estadual, fechadas. Em alguns bairros é longa a degradante fila de funcionários aposentados em busca de uma mísera cesta básica doada pela população. Os governantes gritam pelas forças armadas. Gritam por dinheiro, mais dinheiro do governo federal. E serão atendidos, pasmem. Chegam as forças armadas e vai chegar o dinheiro mais cedo ou mais tarde. Os administradores são os mesmos. A dedução lógica: tudo vai continuar como sempre. Até quando?

2 de agosto de 2017

O RIO DE JANEIRO ESTÁ MORRENDO

O Estado do Rio de Janeiro mais parece uma nau sem rumo navegando num oceano revolto. O mais triste e preocupante é a guerra civil instalada nas ruas de suas principais cidades. Nos últimos meses as estatísticas nos dão conta da morte de um policial por dia. São 91 mortos, assassinados nos últimos seis meses. Acuada , a Policia contabiliza seus mortos sem o pranto da sociedade E segue em frente em situação desesperadora. Falta de tudo. Da tinta de impressora numa delegacia de bairro para registrar uma simples queixa contra um furto a dinheiro suficiente para manter operando seu infinito aparato de segurança publica. Sem contar com salários atrasados e pagos parceladamente. E não é só a polícia. Falta tudo em todos os setores. E falta ao Estado, sobretudo, administração. É uma calamidade comandada por um Governador inexpressivo, apático, inapto e sem luz própria. Seu secretariado segue à risca o seu perfil. Ele personifica o retrato do Estado. Aqui e alí ve-se a população fazendo justiça com as próprias mãos. Como num Estado islâmico moderno.

Agora o Exército chegou. Em alguns bairros da cidade do Rio de Janeiro os soldados foram recebidos com palmas. O ministro da Defesa, Raul Jungman diz nos jornais que vai ser uma guerra. Ele não sabe que a Cidade vive em guerra faz muitos anos. Como diz a jornaleira da esquina da minha rua:

- metade da população da cidade do Rio de Janeiro vive de arrumação .

Por " arrumação " se entenda como um golpe aqui, outro acolá. Venda de drogas e armas, assaltos, grandes e pequenos. Roubo de toda espécie, revenda de mercadorias roubadas, receptação de mercadorias e peças de automóveis e tudo mais que se entenda como pequenos e grandes crimes. Vai longe um tempo em que o ex-prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Cezar Maia, afirmava que dois milhões de habitantes da Cidade viviam do crime. Hoje é muito mais que isso.

Outra autoridade, o ex-governador Sergio Cabral, disse um dia que a favela da Rocinha, com seus 80 mil moradores não passava de uma fábrica de marginais. São eles os mesmos governantes que incentivaram e mantiveram políticas de estímulo à natalidade na base da pirâmide social do Estado. Incentivam com recursos de todas as espécies, inclusive financeiro. Depois que a criança nasce não tem direito a mais nada. Nem escola, nem saneamento, nem saúde e nenhum tipo de assistência que evite seu caminho acelerado para a marginalidade. Assim a criança cresce destinada a dar trabalho para a Polícia. Um exército de ONGs sobrevive defendendo essa política suicida. E tem as religiões. Todas. No mar de ignorância de desassistidos proliferam inúmeras instituições sob a teta do mesmo Estado que a produz.

Nesse círculo vicioso da desgraça estimulado pelo Estado e suas autoridades exigi-se da Polícia um milagre. É certo que as forças armadas darão um alívio na situação de horror que a Cidade vive hoje. Um pequeno alívio. Elas já vieram de outras vezes. Já ocuparam favelas imensas. E a cada vez a situação é mais desesperadora. E Deus nos salve de tragédias maiores. Forças armadas não foram feitas para combater a criminalidade urbana. Vai acontecer tragédia. Só não sabemos a hora. A aptidão e o preparo para a guerrilha urbana só a polícia tem. Mas coitada de nossa polícia. Mal preparada; mal remunerada; mal armada; salários atrasados; acuada, a população exige dela uma atuação impossível. Para tudo se chama a polícia no Estado do Rio de Janeiro. O Estado sumiu. E a Polícia sente-se impotente.

O Estado Rio de Janeiro tem polícia. Um contingente considerável. E tem também descalabros administrativos inimagináveis. Bastaria os recursos financeiros drenados por elisão fiscal e incentivos fiscais desnecessários dos governos Cabral e Pezão, e se aplicados na polícia estadual, para termos a melhor polícia do Brasil. Foram bilhões e bilhões pelo ralo e para o bolso dos governantes. A população carioca e fluminense que vive numa sociedade corrompida, exige do seu policial postura e comportamento de super-homem.

Não concebe que ele, o policial, seja susceptível a todas as mazelas que lhes aflige. Não concebe seus governantes, primeiro, como os responsáveis pela situação que nos aterroriza. Sem contar que o policial conta com a legislação desfavorável e quando não com a leniência e omissão da justiça em muitos casos. A Polícia prende. A Justiça solta. Ele, o policial, no exercício da profissão também paga com a vida tanto quanto muitos dos que reclamam por segurança. Sempre em desigualdade de armamento com a bandidagem ele é a primeira vítima, depois das balas perdidas. Sem contar que a chamada opinião publica lhes sacrifica a cada dia. Tenho pena da polícia.

4 de maio de 2017

A MÍDIA ATRAVÉS DOS TEMPOS

No livro chamado OU CÉSAR OU NADA (Editora Ediouro- 2005) o escritor espanhol Manuel Vasquez Montalban reproduz um diálogo, imaginário provavelmente, ocorrido entre Maquiavel e Cesar Bórgia em quem o primeiro se inspirou para escrever seu livro magistral chamado O PRÍNCIPE ( obra escrita no Século XVI, em Firenze, na Itália e publicada no Brasil por mais de 8 editoras ) Com o tempo, e as conveniências, a obra acabou dedicada a Lorenzo de Médici. Muito interessante para pontuar o desenvolvimento, a massificação e a tentativa de controle da informação por parte do Poder. Na página 291, ele pontua uma fala significativa para todos os tempos, inclusive e principalmente os atuais. Diria Maquiavel:

- É preciso sonhar acordado. É uma época para sonhadores, mas acordados. Imitamos os modelos igos, mas nada é igual à antiguidade. Copérnico se protege afirmando que suas teorias planetárias se baseiam no saber antigo, mas não é assim. Elas se justificam no saber antigo. A cada dia aparecem novas máquinas, novas descobertas, inclusive talvez a Terra seja redonda e gire em torno do sol, como sustenta Copérnico. As patentes de invenção enchem os gabinetes de maços de papel, e nenhuma como a imprensa, que permite a libertinagem de reproduzir livros nem sempre convenientes. E a mecânica? Aplica-se a arte militar e, depois, as descobertas passam à indústria civil e ao comércio. Logicamente, os costumes se ressentem. Virtudes antes sagradas se revelam obsoletas ao lado do papel do dinheiro, por exemplo. Quando já se havia visto tanto poder nas mãos dos banqueiros e comerciantes?

Verdadeira ou não, essa afirmação e descoberta é um primor para os tempos atuais e a primeira constatação de que a tecnologia molda a economia e a economia, pela informação, molda a sociedade. Era assim na Idade Média e continua assim nos tempos atuais. O provável diálogo do Maquiavel com César Bórgia se dá no final do Século XIV, no papado do ainda hoje incompreendido Cardeal espanhol Rodrigo Bórgia, Papa Alexandre VI que pontificou numa época de conquistas e descobertas importantes para a humanidade. Era também os tempos de Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Fillipo Lippi e de Savonarola, o frade dominicano que contestava o poder e a modernidade. Acabou na fogueira.

Por essa época a informação era um bem intangível, difícil de valorar para a massa. Era uma propriedade quase exclusiva da Igreja, do Estado, e de seus apaniguados, dependendo sempre do contexto, claro. Tanto é verdade que o MEIO, ou veículo, era o confessionário ou os mensageiros e os arautos. O mensageiro, muitas vezes era morto logo após a entrega da mensagem. Era para que não revelasse a mais ninguém o teor, além do destinatário. E o arauto era aquele designado pelos donos do Poder para anunciar AS NOVAS à massa. Eram as mídias da época. O livro era um privilégio restrito aos conventos e acessível apenas aos eleitos pela elite dona do Poder e somente em latim. Escrever era possível, mas daí a tornar seus escritos difundidos era uma tarefa quase impossível.

O próprio Maquiavel só teve sua obra difundida muitos e muitos anos depois. Mesmo implorando aos poderosos da época, em vida, jamais encontrou quem lhe desse ouvidos e guarida. Ninguém buscou mais a atenção e os favores do Papa Leão X, um Médici, para seus escritos do que ele. E nunca conseguiu nada. Isso durou até o invento da prensa por Gutenberg, no ano de 1449, em Londres, quando, um século mais tarde, as ideias, definitivamente, abandonaram o curral das elites para circular livremente no meio de quem sabia ler. Em meados do século XV , a principal mídia, além da Igreja, era a pintura de adoração. A partir daí a educação passou a ser uma necessidade da massa com o advento da burguesia. Deixou de ser privilégio da Igreja, das cortes e dos abastados financeiramente. Alguns séculos depois a Revolução Industrial, com o aparecimento do motor a vapor, nascida também a partir de Londres, completou o resto, com a imperiosa necessidade de estudar para trabalhar. É aqui que os ingleses viram um marco definitivo na história da evolução da humanidade, como os romanos foram um dia. E nessa trilha o mundo vai girando mais ou menos do mesmo jeito até o final do Século XVIII, quando novas formas de governo se estabelecem e as ideias passam a circular cada vez mais nas mãos e cabeças de mais pessoas através dos meios impressos. Em seguida veio o iluminismo e com ele as revoluções que mudaram a cara do velho mundo.

As tecnologias da informação sempre estiveram na vanguarda. Até que no começo do Século XX o homem pode comprar o aparelho de rádio e entrar definitivamente na era da informação de massa. Mais tarde, algumas décadas depois o aparelho de TV o colocou num mundo onde ele agregou informação e entretenimento, com imagem e consumo. Mas nenhum deles lhe deu interação. Todos os meios, inclusive o padre no confessionário, solapou ao homem o direito de interagir. Essa possibilidade chegou aos tempos atuais com a Internet. O computador colocou a todos, indiscriminadamente, com o mesmo poder do Padre, do Rei, do Presidente, de Maquiavel, de César Bórgia e do Papa em termo de ideias, pensamentos e interação.

18 de abril de 2017

OS ROMANOV, A RÚSSIA E NÓS

2 de abril de 2017

Noticias Falsas - Facke News

O governo da Alemanha saiu na frente. Enviou ao seu parlamento um projeto de lei tentando regulamentar e multar ( até 50 milhões de euros ) as redes sociais e buscadores que não removam notícias falsas ou posts que incitem ao ódio. O Ministro da Justiça do governo alemão foi enfático nas justificativas:

-o conteúdo criminoso não vem sendo removido na escala necessária nem na velocidade conveniente. O maior problema é que as redes não encaram com a devida seriedade as queixas de seus próprios usuários.

O Ministro acertou na mosca. Trata-se de uma preocupação e um problema mundial, principalmente, para a delicada, confusa e necessária regulamentação sobre este assunto na internet. As multas milionárias fazem jus aos estragos e alcance dos buscadores e redes sociais. Dizem as agencias de noticias que o governo alemão visa, apenas, a questão do partido de oposição inimigo das imigrações. Acrescentam ao temor o fato do partido populista, de direita, Alternativa para a Alemanha (AfD) possa vir a fazer uso dos métodos usados nas últimas eleições americanas. O AfD ameaça a coalização governista da Primeira Ministra Angela Merkel.

Na realidade é muito mais que isso. Em todo o mundo a questão é crucial não só para partidos políticos. Instituições e pessoas clamam por uma solução para este problema. O fator político existe, principalmente em época de eleições. Mas a honra, a dignidade e a verdade de pessoas e instituições, diuturnamente, são afetadas pelos conteúdos das redes e dos buscadores. É claro que as atenções estão voltadas para os gigantes Google e Facebook, mas não só eles necessitam de regulamentação e de uma Lei severa. A rede de internet é muito mais ampla. Severa porque o descaso e a leviandade com que tratam o assunto é estarrecedor.

O Brasil até que foi pioneiro no assunto. Nào significa que tenha sido eficaz. No ano de 2013 o governo Dilma Roussef, também por razões políticas de então, enviou ao Congresso Nacional que outorgou um Projeto de Lei resultando num arremedo legislativo e que ficou conhecido como Marco Civil da Internet. A então presidente bradou na mídia o pioneirismo brasileiro. A Lei ficou a dever. Foi resultado mais do desejo de marketing da pressa do governo. Isso sem contar com o amadorismo por parte do seu relator, o então Deputado Federal Alessandro Molon ( PT-RJ). Saiu por aí reunindo foros inapropriados e neófitos que se imaginavam tecnicamente preparados para contribuir na elaboração da Lei.

Se desejar conhecer um pouco desse passado acesse o blog www.aleluiaecia.blogspot.com ou direto nesses links:

:: UMA LEI PARA A INTERNET NO BRASIL


:: A INTERNET E O MARCO CIVI (I)


:: A INTERNET E O MARCO CIVIL (II)


:: A INTERNET E O MARCO CIVIL (III)


:: A INTERNET E O MARCO CIVIL (FINAL)

Logo depois veio a Lei Carolina Dieckmann contemplando aspectos que não foram previstos no tal Marco Civil ( ganhou esse nome em função da publicação de fotos íntimas da conhecida atriz de TV ) e desde então o governo federal não para de outorgar ou promulgar leis sobre o assunto, culminando na Lei 12.965 de 23/04/2016 que regulamenta a internet no país . Essa balbúrdia legislativa criada sob a pressão de direitos legítimos de usuários, desconhece, e muito, a realidade virtual. Se quiser ter uma ideia do emaranhado legislativo sobre o assunto vá até o blog crimes na internet www.internetlegal.com.br editado pelo advogado paulista Luiz Fernando Pereira. É um assombro. Tem até alteração de artigos do velho Código Penal. Como toda a legislação brasileira o Governo e o Congresso conseguiram tornar o assunto o paraíso dos advogados, a desgraça da vítima e o inferno dos juízes. Levando-se em conta que a INternet veio para ficar Que celeridade se pode exigir do judiciário diante de um novelo desses. Não tem como. E que é pior: as penas são brandas. Tudo isso sem falar do ecomerce ( comercio na internet ). Esse é um verdadeiro Deus nos acuda. Tem de tudo ludibriando o contribuinte.

A salada legislativa é criada sob a tutela de políticos e burocratas. Alguns imaginam de tudo saberem e entenderem. Faz tempo que o Congresso Nacional já deveria ter instituído uma Comissão Permanente, exclusivamente dedicada ao assunto. Assim como o Executivo brasileiro deveria criar uma Agencia Reguladora destinada à Internet. Os danos causados por ela a usuários e instituições só é menor que os benefícios trazidos pela mesma para a sociedade. Eles, os políticos e burocratas, desconhecem esse mundo. O interpretam apenas sob a luz do manuseio de aplicativos e envio de mensagens. Ou sob orientação de agencias voltadas para divulgação de conteúdos. O resultado final é mais trabalho para juízes e advogados e espera sem fim para a vítima. Os primeiros obrigados a julgar guiados por uma profusão de leis nada específicas, mais o Código Penal. Os segundos premidos pelas queixas que não encontram abrigos na salada legislativa. E a vítima fica esperando. E no fim das contas as redes continuam como sempre foram: impunes. Como exemplo, crackers costumam invadir site e buscadores ( principalmente o Google) e alteram o conteúdo das buscas desejadas de acordo com seus objetivos. Levando-se em conta que a Internet veio para ficar é fácil deduzir como será o futuro próximo em matéria de legislação para o setor.

Na Alemanha vai ser diferente.

28 de novembro de 2016

OS INFINITESIMAIS E A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

Sempre causou espanto o fato de países como Itália, Espanha e Portugal terem perdido o bonde da revolução industrial no Século XVII. Após a formação da Europa por Carlos Magno, no Século VII, a Itália com suas cidades estados ( ducados, principados e republicas) que nada mais eram que feudos familiares, e sob a proteção do Vaticano, liderou o movimento renascentista dando uma significava contribuição cultural à nossa civilização.

Isso durou até o Século XIV, quando Portugal, Espanha e Holanda viriam a transformar o mundo que conhecemos através da navegação. A Itália ficou de fora. O conhecimento, a tecnologia e a aventura estavam se inserindo nesses países longe das convicções da Igreja e independente do Vaticano. Vieram as grandes descobertas, do Século XIV até o XVII e esses três países foram os primeiros e grandes responsáveis pela descoberta do novo mundo. O Poder da Igreja era imenso e ela não podia ficar de fora. Daí foi incorporada aos descobrimentos. Não pela inteligência, mas sim pela fé. Pelo menos essa fé aqui referida.

Roma se contentou em ficar de fora do naco das descobertas desde que os desbravadores levassem a reboque os catequizadores do Vaticano. E assim foi, no princípio. Desta forma a Companhia de Jesus fundada por Ignácio de Loyola se instalou da China à Patagonia. Depois vieram outras ordens religiosas. Esse movimento ampliou como nunca a mensagem da Igreja Católica e do cristianismo. Mas a Itália, como Estado, ficou fora do poder das descobertas pela navegação.

Tudo começa com a ação de Galileu. Costuma-se dizer que a fé remove montanhas. Não só. Obstrui e trava o desenvolvimento também. Pelo menos essa fé aqui referida. Assim foi com os infinitesimais. Expulsos e perseguidos na esfera do catolicismo, na diáspora foram acolhidos por países como Inglaterra, Holanda e Alemanha, no Século XVII. Levaram seus conhecimentos para a esfera do protestantismo e das igrejas ortodoxas, possibilitando, principalmente à Inglaterra a criação da Royal Academia de Ciências, em Londres, e liderar a Revolução Industrial, além de sepultar para até nossos dias o poder e glória desses estados que impulsionaram a navegação.

Somente sob a luz dos estudos dos infinitesimais se entende como, principalmente Portugal e Espanha, saíram da linha de frente do conhecimento para mergulharem na escuridão humana e tecnológica. Foram grandes pela inovação. Se tornaram pequenos por sucumbirem à convicção da fé católica e dos dogmas da Igreja e por dizimarem dezenas de civilizações indígenas e junto culturas milenares dos povos que habitavam esse novo mundo.

Isso e muito mais está no profundamente pesquisado e descrito livro Infinitesimal- A teoria matemática que mudou o mundo, do americano Amir Alexander ( editora ZAHAR -2014 ) www.zahar.com.br

Infinitesimais é a definição pela qual ficaram conhecidos o italiano Galileu e seus discípulos. Galileu foi excomungado, banido e asilado por ordens da Igreja. Seus apaixonados alunos e seguidores se espalharam pelos países protestantes e católicos ortodoxos onde puderam ficar longe das garras do Vaticano e proporcionar, principalmente à Inglaterra, a glória de liderar a Revolução Industrial.

Esse caminho foi aberto pelo Rei inglês Henrique VIII (1491- 1547) que viu na contra-reforma, o movimento do renascer católico e do luteranismo ( como ficou conhecida as verdades do monge agostiniano Martinho Lutero-1483-1546 o alemão que com suas 95 teses pregadas na porta da igreja do castelo de Wittenberg, na Alemanha em 1517 daria inicio ao ciclo do protestantismo) a grande chance de se livrar de Roma.

Infinitesimal é a teoria pela qual se exprime a doutrina dos indivisíveis que afirma que toda reta é composta de uma sequencia de pontos, ou os “indivisíveis” que são os blocos de construção da reta e que não podem eles mesmos serem divididos. Assim está descrito na página 15 do livro.

Galileu ao afirmar que a terra era redonda e girava em torno do sol, em sua descoberta revelava o que havia estudado na obra de Euclides o pai da matemática e da geometria , o sírio que estudou e lecionou na cidade de Alexandria provavelmente no Século III antes de Cristo e escreveu OS ELEMENTOS o livro com 13 volumes considerado pelos especialistas como o mais influente da história.

Nele Euclides contempla a descoberta dos princípios da ciência óptica, acústica, consonância e dissonância, esses o primeiro tratado conhecido sobre harmonia musical. Contemplou estudos sobre mecânica, som, luz, navegação, ciência atômica, biologia e medicina , possibilitando o nascimento e a evolução da ciência e da tecnologia. Estudou também Pitágoras ( 495 AC) e Eudoxo de Cnido ( astrônomo 408-355 a.C.) geografia na obra de Ptolomeu ( nascido nos anos 90 a.C. falecido por volta de 168 a.C e escreveu treze livros sobre Astronomia, Geometria e Trigonometria) Aristarco de Samus ( 310-250 a.C) Scarabosco ( professor de astronomia na Universidade de Paris até 1256) e o astrônomo polonês Copérnico ( 1385–1569 ) seu contemporâneo e também, amigo do papa Urbano VIII. Todos estudaram também Aristóteles o filosofo e cientista grego ( 322-384 a.C.)

O conjunto desses conhecimentos possibilitou a Galileu Galilei, nascido em Pisa ( 1564) formar uma escola com inúmeros discípulos e inaugurar uma nova era do conhecimento. Em 1.623, foi apoiado pelo Cardeal Maffeo Barberini, seu amigo e Papa Urbano VIII que se alinhava entre seus seguidores. Até 1.631 prosperou uma era de ouro, liberal, em Roma, sob a ascendência galileana. Dali esses conhecimentos foram levados para as escolas da recém-fundada Companhia de Jesus, criada por Inagcio de Loyola e já naquela época uma excelência no ensino. A Companhia passou a ser dirigida por outro matemático, amigo de Galileu, chamado Cristóvão Clávio (1538-1612) que introduziu o ensino e discussões matemáticas no currículo escolar. A exatidão matemática negava Deus. Acreditava a Igreja Católica.

Com a morte desses personagens vieram os contestadores. A Companhia de Jesus venceu. Alegavam que esses ensinamentos confrontavam a verdade inquestionável sobre a existência de Deus, a única verdade absoluta que deveria ser permitida na terra. A fé e a matemática se confrontaram.

Galileu foi afastado e morreu só, no desterro, na cidade de Arcetti aos 77 anos. Seu corpo, por ironia, repousa num alaúde que é uma obra de arte na Igreja de Santa Croce em Florença,Itália. Seus discípulos e amigos que professavam sua ciência, para não serem alcançados pelos braços do Vaticano fugiram da Itália. Foi a maior fuga de cérebros que se viu até a segunda guerra mundial.

Foram acolhidos pela Inglaterra, Alemanha, Áustria, Holanda, Suécia e alguns outros países fora da influencia de Roma. Ganharam o jogo do conhecimento com o advento da Revolução Industrial liderada pela Inglaterra. A Companhia de Jesus seguiu seu caminho evangelizando povos, sem as verdades da geometria e da matemática. O resultado todos nós conhecemos, principalmente os latinos.

O livro é um primor. Toda essa glória e desventura vem acompanhadas de detalhes da evolução da ciência e dos personagens que gravitaram e fizeram a história. Há também um detalhado epílogo biográfico que serve a curiosos e estudiosos evidenciando um afinco respeitável nas pesquisas históricas. Vale muito a leitura.

5 de novembro de 2016

OS JORNAIS ESTÃO MORRENDO

Mês passado (outubro de 2016) fui acordado por uma voz dizendo-se jornalista Lauro Jardim. Por três vezes, em dias diferentes. Nas duas primeiras desliguei. Atendi na terceira vez:

- Oi. Aqui é o Lauro Jardim. Notei que você cancelou sua assinatura de O Globo......

Só aí ficou claro para mim a gravação e seu objetivo: vender assinatura do jornal. É a primeira vez que vejo jornalista vendendo o jornal que trabalha. É uma inovação, sem dúvida. Revela um anunciante atento mas evidencia falhas na trajetória de venda do produto. Faz anos que sou bombardeado por outras vozes, de funcionários ou não, do jornal, tentando vender assinaturas.

É dramática a situação da mídia impressa no Brasil. Existem informações de fechamentos de jornais impressos numa velocidade preocupante. Estima-se em três por dia no país à fora. As causas são Internet, custos de produção e infraestrutura cada vez mais altos, despreparo dos donos para lidar com uma nova realidade e um modelo de negócio totalmente ultrapassado. Não é só no Brasil. É no mundo inteiro. E no jornal O Globo não é diferente. Logo teremos novidades por lá.

Assim como a veiculação encontrou fórmulas modernas para tentar incrementar a circulação, provavelmente os outros colunistas do jornal também gravaram mensagens de vendas, estes ventos criativos precisavam soprar nas redações. Não só de O Globo, mas em todos os jornais do país.

Chama atenção que eles morrem dentro de velhas fórmulas. Não ousam e não inovam atrelados a um modelo de redação superado que não consegue atrair novos leitores e tampouco manter os velhos. Vão definhando aos poucos. Permanecem atrelados ao modelo de redação dos anos 40 do século passado. Não prestam a menor atenção nas novas gerações cujas formas de expressões e linguagem sofreram alterações profundas. Até mesmo a maneira como se apresentam as notícias mudou. Os jornais permanecem no mundo do passado. Não dá para competir com a linguagem digital. Nesta, o que não é importante fica reduzido a pouquíssimas palavras e é definido em poucos dígitos. O que é importante tem uma incrível forma e trajetória que interessa e é lido e visto por milhões. Até mesmo as notícias que saem nos jornais, na linguagem digital adquirem outro formato. O jornal impresso ao invés de incluir-se nesse novo mundo afastou-se. E pior: burramente criou barreiras de acesso para suas versões digitais. Se isso não basta, trataram de levar para a tela do computador o mesmo modelo impresso. É muita falta de criatividade mesmo.

O caso de O Globo é exemplar. Interessantes apenas as manchetes. Colunas pesadas, com raciocínios tortuosos e longos. Matérias sem objetividade e muitas vezes com textos escaldados e sem conteúdo relevante. Na página de opinião e nos artigos temáticos a maioria dos autores apenas justificam posições em busca de seus caminhos. Textos inconsequentes, em sua maioria. Não defendem ideias e projetos. Justificam posições em arrazoados desinteressantes e inócuos. Pior que o press release. Fazem lob ou justificam-se perante seus nichos. Não há pautas que os tornem atraentes. São poucos aqueles que realmente atraem pela atualidade e textos objetivos. E estes é que seguram o jornal.

Colunas diversas e todas tratando de frivolidades. Inclusive na política. O retrato fiel da política brasileira são algumas colunas de O Globo: piadas. Uma imensa estrutura de produção de conteúdo, com gente talentosa, mas desinteressante. Em dez, doze notas, escapam duas ou três com densidade. No caso das colunas até se entende, mas não justifica.

Causa espanto os acontecimentos recentes em Brasília quando uma maré de jornalistas foi incapaz de relatar com fidelidade o clima do impeachment. Todos se dizem bem informados. Mas ninguém é capaz de explicar como um exército de profissionais não foi capaz de antecipar aos seus leitores o segredo que mais da metade do Congresso Nacional sabia: o fatiamento do processo de cassação da ex-presidente Dilma. Esquecem que são bem relacionados apenas para servir ao leitor. Em plena era da informação os jornais prestam cada vez menos serviços e informam menos. A realidade se encarrega de informar melhor, de ser mais rápida e sem barreiras. A internet que o diga.

Os leitores perdem o interesse, a publicidade foge. Para se financiarem os grandes jornais partem para a publicidade de patrocínio. É quando determinadas marcas aparecem junto aos textos de determinadas coberturas. Mas o leitor imagina e sabe que este modelo não favorece a independência e a isenção necessárias.

Governos e suas marcas também são generosos no financiamento desta prática. Mas o que resulta daí vem mofado, insosso, suspeito, quando não comprometido mesmo

30 de agosto de 2016

O CERRADO BRASILEIRO

Na prazeirosa leitura do livro de ficção cientifica escrito pelo advogado Odimer E. Nogueira ESTAÇÃO TERRA, publicado e lançado no Brasil pela Editora Kelps ( Goiania-GO 2013) o cerrado brasileiro está magistralmente assim descrito pelo autor na página 16:

-Vastíssima extensão de terras de apenas duas estações: a das águas, abundantes e regulares chuvas que ocorrem na maior parte do ano, é o que há de melhor para a atividade agrícola.

Esse fabuloso encanto é logo desfeito no parágrafo seguinte quando ele define:

-a outra, a estação seca, é propícia apenas às lamentações. Chega aos meados de todos os anos e castiga a região com tais rigores que parece apenas servir para separar no tempo dois períodos de muitas chuvas e farturas e mostrar aos viventes da região que nem tudo na vida é sempre igual. As pessoas bem acostumadas aos bons tempos, não se esquecem das benesses das águas quando chega a estiagem.

E a descrição prossegue destacando que a “atmosfera perde quase toda a umidade e o ar desértico, em alguns dias, de tão seco, arde nas ventas e nos olhos dos homens e animais. As pastagens, logo depois das últimas chuvas quando então se instala em definitivo a estiagem, se ressentem da falta de umidade que é agravada pelo vento frio e constante. Ressecam, perdem o verdor e absorvem tanta poeira nas folhagens que não mais servem para alimentar o gado”.

Diz ainda Odmer Nogueira em sua narrativa que “tal dicotomia climática transforma a seca na região num período de provações. Difícil para as pessoas, mais difícil ainda para os animais. E é também tempo de mistérios que favorece a manifestação das estranhas forças que de alguma forma afetam o viver das pessoas. Em alguns anos ocorrem chuvas esparsas e ocasionais em outros, porém a estiagem é absoluta”.

É neste cenário aonde ele desenvolve a trama de sua aventura científica muito bem narrada no livro. Também é no cerrado onde se dá as mais altas taxas de produtividade agrícola do mundo.

Esta característica geográfica, única, se espalha por uma vasta região no centro-oeste do Brasil abrangendo os estados (uns mais outros menos) de Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Maranhão, Bahia e o estado do Piauí. Apesar dessa uniformidade esses estados possuem, cada um, situações climáticas diversas abrangendo regiões de secas, caatingas, ignorância, analfabetismo, doenças e pobreza extremas. Alternam calor e frio criando uma realidade inconcebível para a riqueza que produzem. Ao todo são mais de 200 milhões de hectares, abrangendo 337 municípios e 31 microrregiões, segundo a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuária).

A maior área produtiva está no Mato Grosso, onde se planta atualmente (2014) cerca de 11 milhões de hectares de grãos (soja, milho, feijão, algodão basicamente). Em seguida vem Goiás com 5,5 milhões de hectares, Mato Grosso do Sul, com cerca de 4 milhões de hectares, oeste baiano e cerrados mineiros com 3 milhões de hectares cada um. Além de grãos o cerrado detém as maiores áreas de pastagens plantadas e respectivos rebanhos do Brasil, além de áreas de reserva, estradas, cidades e vilas. Merece destaque o oeste da Bahia.

Tudo isso hoje é possível graças a um visionário mineiro oriundo da Faculdade de Agricultura de Lavras e que foi Ministro da Agricultura no governo Geisel (1974-1979) Alysson Paulinelli. Ele sonhou em desenvolver o cerrado e para isso não poupou esforços, nem dinheiro. Dotado de uma capacidade de trabalho sem igual e forrado de conhecimentos técnicos sem precedentes, dedicou-se com afinco a plantar as raízes que hoje fazem do Brasil um dos maiores celeiros de produção agropecuária mundial.

Há trinta anos o oeste baiano era um campo estéril e despovoado. Com pouco mais de 8 milhões de hectares, é a nova deslumbrante fronteira agrícola brasileira, área esta um pouco menor que a área total do Estado de Pernambuco que possui 9,9 milhões de hectares. Para se ter uma ideia o Estado da Paraíba possui área total de 5,6 milhões de hectares e o do Rio de Janeiro 4,3 milhões hectares. Também conhecida como Alto São Francisco ou Além São Francisco , esse Oeste baiano está na margem esquerda do rio São Francisco e seus afluentes jamais secam. Isto porque as terras estão sob o aquífero URUCUIA, também uma das maiores reservas de água doce conhecidas no mundo.

Segundo a Advogada e pesquisador Hetilene Gomes , pernambucana radicada no Estado do Rio de Janeiro,

“ as terras da margem esquerda do rio São Francisco, onde hoje está o novo Eldorado brasileiro da soja, pertencia à capitania de Pernambuco que perdeu a posse para a Bahia por um Decreto- provisório - de vingança de D. João VI. Vingança por causa da Revolução Republicana de 1817, incitada por bravos pernambucanos. Mais tarde D. Pedro I para punir Pernambuco em função da Revolução de 1824 (Confederação do Equador) liderada por Frei Caneca mantém a espoliação das terras dando início à rivalidade entre baianos e pernambucanos. Para Pernambuco as terras não voltaram jamais.

7 de agosto de 2016

ALYSSON PAULINELLI

Ele está fazendo 80 anos. Poucos brasileiros sabem quem é ele. Mas este senhor é respeitado no mundo inteiro. Foi capa da revista Time com 35 anos de idade e até hoje viaja pelo mundo, da China à Patagônia, de Tóquio a Nova York, convidado que é para palestras nas mais respeitadas universidades do globo e nos mais competitivos centros de negócios. Anda por aí falando sobre seu invento, repassando conhecimentos e satisfazendo a curiosidade cientifica sobre a alta produtividade da agricultura brasileira, principalmente no cerrado. Visionário, desenvolveu técnicas numa época em que o conhecimento não desfrutava dos imensos recursos tecnológicos de hoje. Por onde passa é saudado com reverencia e respeito. O mundo tecnológico lhe credita uma façanha que no Brasil só é conhecida pelo setor agrícola: o aproveitamento do cerrado brasileiro para a produção agropecuária.

Paulinelli descobriu os caminhos para fertiliza-las através de calagem e fosfatagem. Hoje, o cerrado brasileiro distingue-se por uma produção de riqueza extraordinária, aplicação de alta tecnologia e produtividade sem comparação no mundo moderno quando se trata de produção de grãos irrigados. Nem mesmo os grandes produtores mundiais, detentores das tecnologias inovadoras para o campo, como Estados Unidos, Austrália e Canadá conseguem se igualar à produtividade do cerrado brasileiro, especialmente no oeste da Bahia. Para lá acorrem americanos, ingleses, neozelandeses, canadenses, japoneses e brasileiros audaciosos e trabalhadores. Juntos, são responsáveis por cerca de 50% cento do PIB agrícola (grãos) do Brasil. E todos, uníssonos, agradecem a um homem: o mineiro que um dia foi ministro da agricultura e vislumbrou que esta epopeia seria possível.

Alysson Paulinelli é nascido em Bambuí (10/06/1936) e foi ministro da agricultura (1974-1979). Oriundo da Faculdade de Agronomia de Lavras, atual Universidade Federal de Lavras, interior de Minas Gerais, Foi um menino pobre, estudou com dificuldade e para terminar seus estudos dava aula na própria faculdade com 22 anos de idade. Seu pai era agrônomo e pequeno sitiante, portanto era de classe média baixa, como se classificava na época. Destacou-se e virou Secretário de Agricultura do Governo de Minas Gerais no comecinho dos anos 70 do Século passado. Ele está para o agronegócio brasileiro como esteve os americanos o Gran Bell (inventor do telefone), Thomaz Edison (inventor da eletricidade) Ford (inventor do automóvel) e o italiano Marconi (inventor do Rádio) para seus países. Estes senhores passaram para a história não só porque contribuíram com seus inventos para o desenvolvimento da humanidade, mais também porque viveram o suficiente para impulsionarem suas criações e explorarem comercialmente o que foi inventado. É certo que viraram grandes capitães de indústria. No caso do Paulinelli pode-se considerar uma história maior, mais brilhante e mais gloriosa. Seu invento foi distribuído gratuitamente e hoje serve a milhões de brasileiros, no campo. O produto gerado é exportado para o mundo inteiro gerando divisas para o país, receita e tecnologia para o agronegócio.

A esse mineiro baixinho, de olhos atentos e brilhantes, devemos essa infinita realidade de desenvolvimento e produtividade agropecuária do país. Do ponto de vista cientifico ele é o brasileiro mais importante de sua época. Em 1971, do século passado, foi escolhido Secretário de Agricultura do Estado de Minas Gerais. Lá criou o Projeto Jaíba, hoje um centro de produção e exportação de produtos agrícolas onde antes não havia nada além da fome, da inanição, da ociosidade e terras inaproveitáveis. Ali Paulineli descobriu o cerrado. Descobriu, estudou, se encantou e desenvolveu. Nas palavras de seu braço direito em todos esses anos, o admirável economista mineiro Nuno Casassanta, “ a calagem, aplicação de calcário, já era conhecida, mas era olhada com desconfiança pelos produtores para recuperar os solos de cerrado. O Paulinelli com ideias arrojadas e uma invejável disposição de trabalho e capacidade de convencimento conseguiu articular programas que mostraram sua viabilidade. Começou com os projetos integrados em que o Estado de Minas Gerais entrava com assistência técnica, financiamento via Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, o BDMG, mecanização agrícola, armazéns e estímulos à montagem de usinas fabricantes de calcário. Diante do sucesso buscou-se escala através da participação de cooperativas que fizeram uma colonização moderna em amplas áreas do cerrado mineiro. Essa iniciativa levou à criação do PoloCentro, o programa de desenvolvimento que estabeleceu as bases da revolução agrícola.

Casassanta recorda-se também da revolução no setor cafeeiro: "no meio de uma enorme crise e num ambiente de erradicação trabalhou o Paulineli pela renovação dos cafezais em novas bases tecnológicas. O Estado de Minas Gerais desde então produz cinquenta por cento do café brasileiro. E o reflorestamento? A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias) criada por ele já no governo federal, no seu nascedouro recebeu uma formidável dose de apoio que significou o maior programa de treinamento já executado no país. Aplicava-se um bilhão de dólares por ano nisso. Para muitos uma loucura. Mas deu certo e a EMBRAPA hoje é orgulho brasileiro, continental, científico. A instituição é uma academia de alto nível sem padrão de comparação. O Brasil é sucesso na agropecuária graças ao conhecimento e a crença dos produtores na ciência que juntos se criou “, finaliza.

Formou uma equipe de excelência composta, entre outros por economistas, agrônomos, administradores e professores que o acompanharam em toda a sua brilhante carreira. Entre estes estava Paulo Afonso Romano, seu Vice-Ministro que negociou, implantou e dirigiu a CAMPO, uma binacional agrícola Brasil-Japão, empresa pioneira com capital internacional destinado exclusivamente à exploração do cerrado, Antônio Lício que por sua excepcional formação integrou outros governos e ainda hoje é um grande consultor internacional, Francisco Reynaldo Amorim de Barros, oriundo da Fundação Getúlio Vargas, Alceu Sanches, Eduardo Campelo, Raul Vale, Eliseu Alves, Lourenço Vieira da Silva, José Carlos Pedreira de Freitas, Eustáquio Costa, Paulo Cota, Silvestre Gorgulho, Joaquim Campelo , Alex Gonçalves dos Santos, Sá Martins e muitos outros. Paulinelli foi também Presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) Secretário de Agricultura de Minas Gerais por duas vezes e Deputado Federal, inclusive constituinte.