27 de março de 2018

A RÚSSIA DE PUTIN

A Rússia tem mais veneno que democracia. Os russos sempre foram um povo bélico. A história da Rússia, especialmente no último milênio, demonstra a necessidade de regimes fortes, de comando único e apoiado pela força das armas. Com esta receita os Romanov reinaram 300 anos. Catarina, a grande, flertou com o ILUMINISMO e chegou a acolher o filosofo francês Voltaire, com vagas intenções de introduzir as ideias humanistas em seu reino. Logo abandonou seu intuito convencida que aqueles ideais a destruiriam. A Rússia nunca abandonou seus ímpetos de expansionismo. Seja no passado ou agora, no presente. Sob regime dos bárbaros, dos Czares ou do comunismo. Basta ler sobre as inúmeras guerras por defesa de território ou por desejo de expansão, como na Síria atual. E as cortes russas sempre mataram muito. Especialmente por envenenamento. Busquem Rasputin. É uma tradição, assim como a vodca
    1. Agora, em pleno século XXI o povo russo coroa mais um CZAR. O Putin. Nada garante que sem ele o território russo estaria unificado. Nem tão pouco manteria unida sua diversificada e complexa etnia. Nós, latinos, temos o bolivarianismo sob vários figurinos e cores em cada país. Na federação russa reina uma democracia peculiar e única adaptada sob medida para cada unidade. Lembrando que o capitalismo também sofreu uma adaptação peculiar para reinar sob esse guarda chuva putiniano. Como a corte dos czares, a Rússia de hoje elege aqueles que serão os grandes empresários de sua economia. E aquele que sai fora do script, morre em circunstâncias misteriosas.
  • O suposto envenenamento na cidade inglesa de Salisbury do ex-espião russo Sergei Skripal, 66, e sua filha de 33 anos Yula Skripal, seguem hospitalizados em estado grave. Este envenenamento lembra os muitos outros com vários exilados russos mortos na Inglaterra nos últimos anos. Do ex- espião Alexander Litvinenko, aos oligarcas Boris Berezovski e Alexander Perepilitchny encabeçam a lista de mais de uma dezena de mortes suspeitas de russo exilados no Reino Unido. O primeiro deles foi há 30 anos. No aeroporto de Heathrow, em Londres, o espião búlgaro Gueorgui Markov recebeu uma picada mortal disparada de um guarda chuva com uma agulha envenenada preparada pelo então KGB, a polícia política soviética. Putin está no Poder há vinte anos. No exterior, inimigos seus costumam perecerem ora enforcados, ora envenenados e todos em circunstâncias suspeitas. Mesmo em território russo seus rastros foram detectados no envenenamento do primeiro ministro da Ucrânia Victor Yushchenko, ainda vivo após 24 cirurgias. O atual Ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johson diz sem papas na língua:
    - A cadeia de comando desses crimes vai até o Estado Russo.


Impressiona em todos os casos a postura tolerante dos diversos governos ingleses. Os russos vêm agindo em seu território, dizimando inimigos, faz muito tempo. Só agora, nesse último caso, a ministra Teresa May agiu com firmeza expulsando, imediatamente, cerca de 23 diplomatas. Pego com as calças nas mãos o governo russo pediu amostras do veneno encontrado nos corpos para comparar com seus arsenais. Uma saída meramente protocolar para mostrar interesse longínquo na elucidação. Puro faz de conta.

Esses episódios em território inglês servem também de alerta para o mundo. Em 20 anos de poder Putin moldou o império russo à sua imagem e semelhança. Sua audácia impressiona. Seja eliminando inimigos em território estrangeiros ou em territórios russo e modelando as urnas de acordo com seu interesse ele se prepara para o bote no mundo. Merece a leitura, com atenção, o livro AS ENTREVISTAS DE PUTIN, lançado no Brasil ano passado pela Editora Best Seller, em todas as livrarias. A edição é o resultado de uma série de entrevistas realizadas pelo cineasta Oliver Stone e que deram origem a um documentário com o mesmo nome.

Fica claro na leitura do livro o papel de franco colaborador do cineasta. Em alguns trechos o próprio Putin o repreende e o chama de antiamericano. É tal o empenho na bajulação que em determinados trechos, mas parece um agente oficial russo entrevistando o chefe. Mesmo assim, quem tiver a paciência de romper suas 333 páginas vai se deparar com um farto material para análise das ambições e desejos do agente secreto que virou Czar da Rússia. Fica claro também que a edição das entrevistas passou pelo crivo do corpo diplomático russo e outras esferas da administração tal o cuidado nas colocações e raciocínios emitidos sobre assuntos delicados. Na mesma intensidade que Stone o bajula o livro revela o aparato do Estado Russo perfeitamente afinado com a era putiniana.

É verdade que não reina nenhum sinal de qualquer ranço comunista no perfil do líder russo. No entanto sobram evidencias de ambições politicas assim como borbulham arrogância e desprezo no julgamento do ocidente sobre seus atos. A desenvoltura com que atuam agentes secretos a serviço do Kremlin nas ruas de Londres indicam laços secretos e fortes com o Serviço Secreto Inglês. No livro ficou faltando ao cineasta Stone a veia de jornalista. O leitor ficaria muito mais satisfeito em ter um esclarecimento mais profundo e detalhado da fuga do funcionário do Pentágono, Edward Snowdem para Moscou, assunto sobre o qual as explicações de Putin, no livro, não convencem. A conclusão ao final da leitura é cristalina: Putin possui fortes aliados em sua cruzada para dominar o mundo. Oliver Stone é um dos seus generais.

1 de março de 2018

RIO DE JANEIRO E DE GUERRA


Comprar celular roubado, negociar o preço livremente na Avenida Brasil, umas das principais artérias viárias da cidade, em seus engarrafamentos, é um ato normal. Não há repressão. Se isso escandaliza tem mais: as feiras de produtos roubados proliferam. Parece uma cidade sem Lei. A feira de Acari, no bairro do mesmo nome, zona norte da Cidade, famosa por revender peças automobilísticas de carros roubados vai de vento em popa. Assaltos a caminhões de cargas, também na avenida Brasil, são diários e múltiplos. Há uma predileção dos bandidos pelas cargas de carnes. São aquelas em que o produto do roubo é vendido rapidamente.  Pontos de venda funcionam, " organizados ". Dos maiores, um está no bairro de Guadalupe também na Zona Norte, margeando a própria avenida Brasil, atrás do antigo depósito das organizações Sendas. O outro está num dos pontos mais movimentados do Centro da Cidade: atrás da Central do Brasil, onde próximo funciona a sede da Polícia. Isso sem contar os receptadores que devem existir aos milhares.


                 Arrastões são diários e em diversos lugares. Na avenida Marechal Rondon outra artéria urbana importante que liga a Zona Norte ao Centro tem períodos que são diários. E muita pouca gente vai se queixar na Polícia. Parece que o carioca já se acostumou com essa aberração. É a naturalização da violência. No outro lado da moeda está a propagação da violência manifestada em balas perdidas ou certeiras que ferem, mais das vezes de morte, crianças e adultos e uma dezena de policiais por mês. Com salários irrisórios se comparados às suas tarefas, a polícia sucumbe indefesa diante do arsenal de guerra dos bandidos. Suas armas estão superadas, são falhas e sem manutenção. Policiais já morreram em confronto por falhas do armamento. E se não basta, resta o cipoal legislativo, incompreensível, inadmissível e que faz a Justiça ser diligente e parecer leniente com a bandidagem. Nas televisões proliferam opiniões de toda sorte de “especialistas” com suas análises elaboradas para colocar bandidos como vítimas sociais. Horda de advogados se assanham inconformados pela possibilidade de perderem a imensa clientela no meio da bandidagem. E os políticos. São inúmeros os que se elegem com o apoio de vagabundos, assaltantes e facínoras. E contam com os votos de suas famílias também. Leia artigo sobre natalidade no Brasil:

https://aleluiaecia.blogspot.com.br/2014/07/natalidade-no-brasil-ii.html

                Como diz a jornaleira da minha rua: 

- No Rio de Janeiro as comunidades (um eufemismo imposto pelos bandidos para definir as favelas) em sua maioria vive de arrumação. 

                Por arrumação se entende toda a sorte de pequenos e grandes delitos. Vai de assaltos, arrastões, revenda de material roubado, furtos e outras transgressões. Esse bloco age sem repressão. Além de ser difícil o seu combate, propaga a violência. Nos morros e favelas impera a lei da guerra. Nas redes sociais proliferam vídeos de atos de quadrilhas com ferocidade comparável ao Estado Islâmico. Menores de idade, protegidos pela legislação, exibem todo tipo de arma. Reina a exaltação da brutalidade. A mídia clama por mais eficiência da polícia. Esta exerce suas funções com salários atrasados, armamentos superados e frota sucateada. É comum turistas desistirem de queixas diante da falta de equipamentos para registros nas Delegacias. A violência e o inusitado toma conta da vida dos cariocas. Um aplicativo para indicar a existência de tiroteios faz um enorme sucesso. ONDE TEM TIROTEIO.OIT- RJ. Registra um tiroteio a cada duas horas.


                A população do Estado do Rio de Janeiro precisa se conscientizar que não é apenas vítima da violência. É parte dela. Ativa e passiva. No metrô da cidade está cheio de avisos solicitando aos passageiros que não comprem mercadorias de ambulantes. Alerta que uma das razões é que o produto pode ter sido roubado. Quem compra mercadoria roubada está participando do crime. Este é o retrato, pequeno, da realidade que o Exército vai enfrentar.

21 de fevereiro de 2018

RIO DE JANEIRO : O ROUBO É NORMAL


A Cidade Maravilhosa e multicultural deu lugar a uma cidade com medo e permeada por violência e sangue. Não se respeita mais nada. Uma completa inversão de valores toma conta de suas ruas. Feiras de produtos roubados  surgem em vários bairros. E os compradores não se imaginam criminosos. 

Assaltos, arrastões, quadrilhas bem armadas; balas perdidas e balas certeiras assassinam policiais e inocentes. Invasões de morros e favelas por quadrilhas rivais com tiroteios sem hora e lugar para acontecer tornaram-se banais. Policia despreparada e com salários irrisórios, armamentos insuficientes. A cada duas horas uma pessoa é ferida por bala na cidade. O  ano de 2018 está começando e já temos mais de uma dezena de policiais assassinados. Ano passado, 2017 foram 137 os policiais mortos, dizem as estatísticas.



A cidade do Rio de Janeiro foi a capital política e cultural do Brasil. A crônica de seu cotidiano envolvia sol, samba, sorrisos, poesia e beleza. Tudo aqui tinha uma repercussão intensa pelo resto do país. E não faltavam criações e fatos que orgulhavam os cariocas. Sua gente, afável e acolhedora, andava pelas ruas esbanjando alegria. Suas esquinas e praias realçavam as características de um lugar que todo brasileiro sonhava conhecer e viver. Isso se foi. Hoje o Rio exporta um estilo de vida de violência e desordem. Seus moradores perderam a noção de crime.


Num sábado, voltando para a cidade, pela Avenida Brasil, na altura do bairro da Penha, inadvertidamente entrei na pista da direita. Já havia sido aconselhado  para não cometer esse erro. Sei que engarrafamentos em determinados locais da cidade a chance de assalto por arrastão é múltipla. Como era sábado fui vencendo a retenção de tráfego, lento, não engarrafado. No bairro de Bonsucesso, dei de cara com inúmeros jovens que aparentavam idades de 16 a 22 anos de idade. No meio da pista, ofereciam aos motoristas celulares. Havia de todas as marcas, de todos os preços e modelos. Fiquei estupefato. Em plena luz do dia. No posto de gasolina onde parei a informação veio certeira: eram ambulantes de celulares roubados. E o pior: os motoristas paravam, se informavam do preço e negociavam.

Fiquei imaginando aquela cena vista por um policial. Fiquei imaginando aqueles carros, muitos com crianças dentro, e seus motoristas. Será que não seriam eles os assaltados e que agora negociavam ali a compra do seu próprio celular roubado? 

Fiquei imaginando que sociedade é essa cujos membros negociam preços de produtos roubados como se estivessem num comércio regular? Fiquei imaginando se a principal razão da cidade encontrar-se mergulhada numa violência sem limites não seria aquele tipo de morador ali parado negociando preço de celular roubado. Agora querem que o Exército resolva.

11 de dezembro de 2017

AINDA FRANK SINATRA- O CHEFÃO ( final )



Me interessei pelas biografias do Frank Sinatra a partir do ano 2000. Estava em Chicago onde vivia uma filha. Era dia do meu aniversário e ela fez uma reserva me dizendo que eu iria adorar o lugar. Cheguei cedo. Era um lugar chique, sem sofisticação. Um senhorzinho de cabeça branca como barmen era o único habitante naquela hora. Me serviu um dry martini e continuou no que estava fazendo. Pus-me a olhar as paredes do bar. Todas decoradas com cartas e bilhetes. Emoldurados, criteriosamente datilografados, dirigiam-se a um único personagem: o dono do bar, seu amigo. Outra coisa me chamou atenção: em nenhuma das cartas havia maiúsculas. Tudo escrito em letras minúsculas. Não me perdoo por haver esquecido o nome daquele personagem e do lugar. Como não me recordo do nome nunca pude busca-lo na internet. Busquei o bar. Aparece mais de 20 lugares como preferidos do Sinatra na velha Chicago. Um deles diz o mestre Google era-lhe mais assíduo. Mas não há referencias a cartas emolduradas na parede.
Fiquei impressionado. Como um artista como Frank Sinatra encontrava tempo para escrever longas cartas (eram muitas) e saborosos bilhetes? Pelo que observei seus textos lembravam uma vida, mas os escritos estavam datados, do primeiro ao último, em pouco menos de dez anos. Aquilo provavelmente não era nada diante da quantidade de amigos que Sinatra fez na vida. Dalí para frente busquei algo mais que o cantor. E como tem…
Atribuem o aprimoramento do seu talento aos muitos anos que passou na orquestra de Tommy Dorsey como crooner. Esses anos deram aos seus ouvidos cultura e foro musical. É a dedução lógica. Sua sensibilidade musical era tamanha que fazia todo o mundo do jazz americano curvar-se a seus pés, mesmo ainda desconhecido. Diz o jornalista James Kaplan que havia algo mais: seu impressionante controle de respiração ao cantar vinha de uma vantagem anatômica na caixa torácica.
Sua legião de amigos; sua indescritível capacidade para o álcool; seu grupo de noitadas conhecidos como RAT PACK (turma do rato) sua vida perdulária; seus acessos de fúria incontroláveis; o desprezo e provocação por autoridades e jornalistas; sua arrogância e sua sexualidade voraz junto ao incomparável poder de sua voz tornavam-no um manipulador de emoções. Apesar de volátil e impaciente era capaz de grandes atos de generosidade.
O jornalista Gay Talese passou toda a sua vida tentando entrevista-lo. Jamais conseguiu.  Mas uma das melhores definições sobre Frank Sinatra parece ser a do produtor Jack Entratter ao se encontrar com seu regente Quincy Jones, como está na página 745 do volume dois:
– O que vocês fazem com o Frank? Quando ele está com o Rat Pack aqueles caras vão para a sauna às cinco e meia da manhã tomando Jack Daniel’s. Eles passam a noite toda na farra. Mas, quando vocês trabalham com ele, Frank chega 45 minutos adiantado com a partitura, uma pasta e exercícios vocais. Dá para ver que ele está preparado. Porque, apesar de tudo o que veio depois, os filmes, a TV e tudo mais, antes de qualquer coisa Frank foi um cantor de orquestra, essa é a raiz dele.
E quem não gostaria de estar no Rat Pack? Entre outros, em diferentes épocas, era composto por Dean Martin, Sammy Davis, Jerry Lewis, Peter Lawfford, humphrey Bogart . Orson Wells.
O Brasil aparece por duas vezes no segundo volume da biografia escrita por Kaplan. A primeira na página 842 quando ele rememora o famoso telefonema de Sinatra para Tom Jobim, de madrugada, de Los Angeles para o bar do Antonio’s, famoso botequim com varanda de Ipanema no ano de 1966. Era dezembro. Pouco tempo depois o maestro brasileiro estava nos estúdios na Califórnia gravando os álbuns memoráveis. São apenas duas páginas do livro. Mas a descrição do autor sobre a musica do Tom, na página 843, vale a leitura de metade do livro. São as dez linhas mais bonitas sobre a obra do Jobim que já li. A outra referencia ficou para sua apresentação no Rio de Janeiro. É considerado o maior show de sua carreira. Havia 170 mil pessoas na noite de 26 de janeiro de 1980 no Maracanã. E chovia muito.  Sinatra queria ir embora para desespero dos organizadores. Mas rendeu-se diante da ovação. Ele voltaria ao Brasil um ano depois para cantar em três noites, de 13 a 16 de janeiro de 1981 no Maksoud Plaza em São Paulo. Essa viagem não consta deste livro.
Mas há uma infinidade de histórias deliciosas. As longas e torturantes negociações para gravar Stranger’s in the Nigth que ele não queria; seus quatro casamentos, sua infindável briga com a mídia, sua relação portentosa com o misto de restauranteur e mafioso Jille Rizzo; suas bebedeiras homéricas; seu capítulo com a máfia. E muitas, muitas outras histórias que valem o livro. Aliás vale a leitura de qualquer biografia do Sinatra que você encontrar.

9 de dezembro de 2017

SINATRA-O CHEFÃO (II)

Este é o título do segundo volume da última biografia do cantor Frank Sinatra. Escrita pelo jornalista americano James Kaplan e com 1.211 páginas trata-se de uma obra prima em matéria de biografias. Lançada no Brasil pela Editora Cia das Letras em 2015 é leitura obrigatória para quem deseja entender com profundidade o que foi os Estados Unidos no Século XX. Não que o autor se arvore em sociólogo. Mas explica e prova com fatos e versões como Sinatra foi o mais significativo filho das contradições americanas do século passado. O livro mostra que ele passou por todas. Venceu todas. Mostra também como ele se tornou o maior ícone americano até nossos dias. Como diz na orelha do livro “ quando James Kaplan publicou FRANK: A VOZ, o primeiro volume de seu ambicioso projeto sobre um dos personagens centrais da cultura popular do século XX, só admiradores do artista norte-americano sabiam que estavam diante de um empreendimento majestoso”.
A história da ascensão de Frank Sinatra (1915-1998) no primeiro volume apresenta uma série de outros enredos: o nascimento da cultura de massas, a vida boemia nos cassinos e nigthclubs, o apogeu e o lento declínio do rádio, a explosão da TV e o culto à celebridade.  Nesse volume segundo Kaplan se dedica ao mito em pleno processo de entronização em “ chefão” tendo como ponto de partido sua ressureição após o Oscar ganho por seu desempenho no filme A Um Passo da Eternidade. “ Uma vida movimentada como poucas no showbiz de qualquer época: gravações de inúmeros álbuns e singles, quatro ou cinco filmes por ano, shows na TV, a fundação da própria gravadora e negócios dos mais diversificados. Surge um Sinatra cada vez implacável em suas decisões e insaciável em seus muitos apetites “ lembra o autor.
Frank Sinatra nasceu com tudo para dar errado na vida. Mesmo depois que deu certo e venceu, sua carga pesada de origem pobre e humilhante se refletiria em sua carreira e o deixaria arruinado ao final dos 40 anos de vida. Obstinado e dotado de um senso agudo para sua vida profissional consegue reerguer-se dar a volta por cima e se tornar o maior mito do showbiz mundial. Juntou num único caldeirão todo o seu talento de cantor, ator, improvisador e com muita sagacidade soube captar em que medida, onde e quando poderia usar seu talento para embevecer o publico. Aprendeu apanhando. Ao perder tudo lhe restou a voz, a possibilidade de fazer de novo e corrigir sua imensidão de erros. E assim foi.

Toda essa trajetória está muita clara e muito bem descrita no final do primeiro volume da obra de Kaplan e no começo no segundo volume. Na página 596 ficamos tendo a real importância de sua influencia. O Secretario de Imprensa da Casa Branca, Pierre Salinger ligou para ele em Palms |Springs, na Califórnia, e lhe deu em primeira mão o anuncio do bloqueio a Cuba. Um gesto que impressiona para quem havia se afastado do governo Kennedy. E é digna de atenção e nota toda a parte do livro em que o autor narra o assassinato do Presidente Kenedy. Nada indica que Sinatra esteve envolvido com o assassinato em si. Mas quanto às manobras e razões que levam ao desfecho da carreira do jovem presidente americano a narração é límpida, os fatos incontestáveis e a conclusão lógica pela leitura é digna de uma astúcia de literatura ficcionista. Os fatos estão expostos com uma propriedade assustadora. Mas Sinatra se sai bem do episódio. Quem leu ou viveu o período encontrará a resposta para aquilo que a polícia americana, por décadas, não forneceu. No livro não resta nenhuma dúvida que foi a máfia a autora do assassinato. Toda a trama está descrita em minúcias. Sua incursão pela política, primeiro foi para eleger políticos do Partido Democrata, inclusive o Presidente Kenedy. Mais tarde mudou de lado e abraçou a causa republicana ajudando a eleger seus políticos inclusive o Presidente Ronald Reagan. Se meteu com a máfia não por interesses políticos mas para colocar o pé no milionário negócio dos cassinos. Mas isso é outra história.

Ao final da leitura desse segundo volume fica-se com a convicção que o talento do Sinatra foi muito além de cantar. Triunfou nos negócios, na política, criando e moldando seu próprio nome que nunca foi FRANCIS ALBERT SINATRA. Mas morreu como tal. Ao longo da vida foi escolhendo o que mais lhe convinha para seu êxito. A partir do soerguimento de sua carreira passou a escolher seu próprio repertório, ditar como queria os arranjos musicais e quem seriam os arranjadores. Ouvia os clássicos de Bellini, Debussy, Donizeth e muitos outros de onde extraia inspirações para acrescentar nos arranjos. Criou suas empresas para distribuir seus produtos e depois vendeu-as faturando milhões de dólares.
Trata- de uma vida tão rica que merecerá mais um artigo.

30 de novembro de 2017

FRANK SINATRA- A VOZ (01)

  • Não é uma biografia qualquer. Trata-se da história, e que história, daquele que é considerado o maior personagem do Século XX. E a obra pode estar no pódio das grandes biografias contemporâneas. Soberbo é o trabalho do Jornalista americano James Kaplan nos dois alentados volumes sobre a vida do mito Frank Sinatra. Lançados no Brasil em 2013 pela Editora Companhia das Letras (www.companhiadasletras.com.br) o primeiro volume intitulado A VOZ com 747 páginas. Vai do seu nascimento em 1915 no subúrbio nova-iorquino de Hoboquem, New Jersey, até 1953 quando ele ganha o Oscar por seu desempenho no filme A Um Passo da Eternidade, interpretando o soldado Ângelo Maggio. O segundo volume (SINATRA- O CHEFÀO) mais denso e volumoso, aborda a última parte da existência do mito e vai até o ano de sua morte em 1998.
Não é um livro qualquer. São dois alentados volumes, para não dizer calhamaços. A precisão dos fatos, o teor da narrativa, o volume e a minuciosidade das pesquisas se agregam a um texto soberbo difícil de encontrar. Nada se compara em termos de qualidade e precisão em biografias do show business.  Essa obra coloca o jornalista James Kaplan no mesmo nível do pesquisador e historiador britânico Simon Sebag Montefiore, o maior historiador das últimas décadas. Kaplan revela que Sinatra foi o ser humano mais historiado dos tempos modernos. A decisão de escrever a obra ele tomou em 2004 num jantar, em Santa Mônica, na Califórnia, quando estava à mesa num grupo que todos haviam conhecido Sinatra. Todos contavam histórias sobre Sinatra que de repente lhe pareceu vivo. Na recordação dos convivas daquela noite “ havia uma visão de Sinatra como homem e artista, sem as armadilhas e os ouropéis da celebridade”. Sinatra não estava mais vivo fazia seis anos. A audácia e pertinência de Kaplan resultou numa biografia inesquecível, tal qual a vida do biografado. Em suas próprias palavras:
Ali estava um gênio e um grande artista, um homem que havia mudado – moldado- o Século XX e eu lhe devia o que ele merecia.
Não só você Kaplan. Todo o Século XX.
Ao mergulhar nas páginas desse primeiro volume o leitor descobrirá que Sinatra sempre soube o que lhe convinha, artisticamente. Na primeira parte da sua vida foi um elemento subversivo que sempre tentou minar os Estados Unidos. Seu passado de delinquente sexual, conexão com a Máfia, fuga do Serviço Militar, seu cabelo oleoso e o sobrenome italiano foi o combustível para asfaltar a estrada. No começo a América lhe tinha preconceito e desprezo. Apesar disso a audácia, a intuição e o talento fizeram a grande diferença. A descrição do autor sobre o fascínio do cantor por gângsteres, simplificavam suas complexidades e seus problemas físicos. Mas descobre-se um personagem também tolerante ao longo dos seus 83 anos de vida.
Apesar da primeira parte de sua vida ter sido extremamente trágica, desde o nascimento em Hoboquem, subúrbio de New Jersey onde a mãe era aborteira, passando por duas tentativas de suicídio, um casamento frustrado e uma desesperada paixão pela atriz Ava Gardner, o primeiro volume também é divertido. E insinuante. Onde quer que fosse sempre foi um revoltado pela forma como os negros eram desprezados e excluídos pela sociedade americana. Dedicou-se desesperadamente à leitura para entender e expressar esse pensamento. Até que lhe aparece na vida um jornalista, George Evans, lá pelos anos 40 do Século passado. Muda-lhe os hábitos e a vida. Evans se foi cedo levado por um ataque cardíaco. Mas cunhou a melhor definição sobre o mito:
Frank nasceu para ser astro. Mas também nasceu para ser uma figura controversa, e astro e figura controversa ele vai permanecer até o dia em que morrer.
Para complementar o autor agrega a esta frase uma magistral definição: … toda a vida de Frank parecia basear-se na acumulação e liberação de tensão. Quando a liberação vinha na forma de canto, era lindo; quando tomava a forma de fúria, era terrível. Trabalhar duro e cantar sem parar, noite a dentro, nunca fez mal a ele. Sua ambição era titânica. Sua disciplina incomparável.
Pois imagine alguém que entrava num palco as 10 horas da manhã e a cada duas horas repetia o show até as duas horas da madrugada. Assim foi seu começo e assim seria toda a sua vida. Imagine o Sinatra andando de ônibus e trem como crooner de orquestras. O Sinatra que não aceitava a solidão e vivia cercado de amigos. O Sinatra generoso. O filho do Jornalista George Evans ficou na sua folha de pagamento até sua morte. O Sinatra que tinha sempre um número em seus programas e shows com gente de cor. E os remunerava bem. O Sinatra atormentado pela paixão num casamento rumoroso com a atriz Ava Gardner. Todas as suas facetas desfilam pelas páginas mais como uma epopeia humana que simplesmente a vida de um artista.
A leitura nos leva a uma conclusão. Frank Sinatra personificou como ninguém as mudanças sociais e raciais dos Estados Unidos no Século XX. Essa atmosfera permeia toda a sua vida e está bem retratada nos dois volumes. A narrativa de como ele vai ao fundo do poço com a carreira arruinada próximo aos 40 anos para emergir com força total em 1953 é um primor. Sua careca, seus olhos azuis, sua estatura baixa e sua voz marcaria o Século XX como nenhum outro.
Histórias saborosas, dolorosas, criativas, de amizades, de fúria e solidão tinham parcerias com ele. Ao final da primeira fase de sua vida, comecinho de 1950 um comentário maldoso, uma piada de mal gosto sobre a amante do Samuel B. de Mayer, um dos quatro fundadores da Metro, levou-lhe o último emprego e trouxe-lhe a rua. Seria o fim. Todos acreditaram. O que levou seu agente Irwin Lazar a dizer:
- Ele morreu. Acabou. Nem Jesus Cristo conseguiria ressuscitá-lo nesta idade.
Sinatra estava próximo aos 40 anos de idade. Claro que ele não pensava assim. E só ele mesmo foi capaz de reergue-se.


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20 de outubro de 2017

Rio de Janeiro: lirismo na favela

                          
 
Durante anos, muitos anos, ou mesmo décadas, intelectuais, literatos, músicos, compositores, jornalistas e artistas em geral louvavam o morro, as favelas cariocas, em prosa, verso, músicas, contos, crônicas e romances. O verso, a prosa e a frase versavam todos sobre a doce vida no morro. A favela era lugar de beleza; de felicidade. Diziam eles. Essa turma dava o nome a isso de lirismo. Lirismo é o cacete. Aí apareceu a turma do funk e do punk e desmistificou essa história. Seus acordes, rimas e métricas tortuosas cantam a vida como ela é. Com todo o realismo cruel que os cercam.
 
Não conheço ninguém que se pudesse morar em outro lugar não caísse fora desse lirismo em instantes. Vá lá na Favela do Arará que faz parte do complexo de favelas da Barreira do Vasco no bairro de Bonsucesso, na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Vá no Morro do Chapadão, na Pavuna. Quero ver alguém achar algum lirismo ali. É dura e cruel a vida por lá. O morador convive com a autoridade do bandido e a total ausencia do Estado. O primeiro se faz presente, o segundo nem toma conhecimento.
 
Com o Estado ausente, a crueldade, a selvageria, a insensatez, a barbárie e a ferocidade com que os vagabundos dominam as favelas faz parecer um exército jihadista. Quem viu as cenas de carnificina na Rocinha, no começo do mês de outubro de 2017 quando traficantes de um grupo esfolavam inimigos de outra facção vai achar o Estado Islâmico moderado. Exagero meu na comparação? Lá como cá a violência e a fúria imperam. Um ser humano foi esfolado diante de uma câmera, seu coração e língua arrancados a faca e exibidos como troféu. A imagem chocante não foi mostrada pelas TVs. Mas na internet sim.
 
Para provar que não há diferenças entre o estado islâmico e as facções de morros da cidade do Rio de Janeiro basta recorrer à leitura do livro O ESTADO ISLAMICO- DESVENDANDO O EXÉRCITO DO TERROR, Editora Seoman- 2015 e de autoria dos jornalistas Michael Weiss, americano, ex-correspondente na cidade de Aleppo, na Síria, e editor chefe da revista Foreng Policy e do nascido em Habu Kamal e hoje cidadão londrino que trabalhou para o New York Times e é Editor do jornal inglês The Guardian, Hassan Hassan. Este livro é também um excelente manual para nossas forças de segurança. Impressiona pela coragem e pelo relato minucioso dos dois jornalistas. 
 
 
Descrevem o Estado Islâmico como “chacinadores, selvagens, agentes do caos, formados por convertidos e jihadistas cinco estrelas especializados em extorsões e recrutamento. Através da força brutal, decapitações de reféns e selvageria chocou o mundo ”. Ora bolas, eles nunca ouviram falar nos morros cariocas. São iguais.
 
 Lá como cá se dividem em facções. Lá eles buscam um objetivo comum e aqui buscam múltiplos objetivos também com a violência gratuita através da qual passam a reinar. Lá são estimulados pela fé e cobiça. Aqui pela miséria, abandono que se manifestam em assaltos, tráfico de drogas, balas perdidas, agressões, assassinatos e astúcias que se transformam em mortes de inocentes. Lá, vários exércitos os derrotam há anos. Aqui, há décadas, apenas a força da Polícia Militar os enfrentam. E os favelados só aumentam. São prisioneiros da desgraça, como nós do asfalto. Tolo aquele que acredita que o cidadão que habita as milhares de favelas do Rio de Janeiro prefere colaborar com a polícia.

16 de outubro de 2017

RIO DE JANEIRO DE FAVELAS

Em meados da década dos anos oitenta do século passado a cidade do Rio de Janeiro tinha 620 favelas. Esse foi o numero levantado pelo Comitê de campanha do então candidato a Prefeito, Deputado Federal Rubem Medina. No escritório central tínhamos um mapa com todas elas. Suas populações e suas necessidades. Que não eram poucas. A favela que era o xodó do candidato e onde ele pretendia tornar o cartão postal de sua administração, eleito fosse, era a Rocinha. Lá se vão 32 anos.



Da Rocinha incorporamos uma líder comunitária de nome MARIA HELENA. Baixinha, branquinha, olhos pequenos e negros, brilhavam e pareciam uma jabuticaba. Cabelos pretos escorridos pelos ombros, deveria ter seus trinta de idade. Lembro que era de uma vivacidade impressionante. Sabia tudo sobre a favela. Todo santo dia ela estava lá no escritório e sempre trazendo detalhes das necessidades de sua comunidade. Era um encanto de pessoa e com uma disposição para o trabalho invejável. Todo mundo gostava dela. Além disso foi ela quem nos ajudou a entrar nas outras favelas do Rio. Conheci todas. A que mais me impressionou foi a favela do Sapo na zona oeste da Cidade.



 Nunca tinha imaginado ser possível o ser humano viver num ambiente tão degradante. Ali, num certo dia de campanha enquanto o candidato conversava com os moradores fui conhecer o “ chefão “ do lugar. Era um negro baixo, forte, atarracado e com cara de mau. Tinha nascido ali mesmo. Perguntei-lhe muito sobre a vida no local. Fiquei sabendo que aquela favela, embora pequena, era estratégica. Se guardava drogas no lugar.



De lá para cá, quase 40 anos depois, o cenário não mudou. A Cidade do Rio de Janeiro tem hoje mais de mil e duzentos favelas. Habitam esses aglomerados humanos mais de dois milhões de pessoas. A favela do Sapo cresceu muito. Hoje  tem milhares de moradores e faz parte de um complexo de mais 17 favelas.

 As principais são Rebú, Cavalo de Aço, Coreia, Mobral, Vila Aliança e Favela do Morro do Chapéu.Todas no bairro de Senador Camará cuja população total bate os cem mil moradores. Nunca mais voltei lá. O Socialismo moreno passou a reger a vida das favelas. Retirou-se a repressão, proibiu-se a PM de subir os morros e deu-se um livre transito para tudo. E o Estado que nunca lá esteve jamais olhou pro lugar.


Rubem Medina perdeu a eleição para o candidato Saturnino Braga. O socialismo moreno do governador Leonel Brizola venceu e deixou um rastro de pobreza, desordem e violência na cidade. Alguns anos depois li no jornal que mataram a Maria Helena. Numa briga de facções dessas que acontecem todo dia ela se foi.



 O Estado brasileiro nunca foi de marcar presença para essas populações que passaram a conviver ou praticar  todo tipo de marginalidade. E quando acontecem crimes a PM é obrigada a dar combate. Fica exposta a todo tipo de defensoria de direitos que o socialismo moreno deixou como legado. A violência habita esses lugares com uma crueldade alarmante.


Mas se fiquei impressionado com favela do sapo foi porque não havia ainda conhecido a favela conhecida como Barreira do Vasco, hoje uma das maiores do Rio. Naquela época havia uma entrada para uma das favelas do complexo por uma das ruas do bairro de Bonsucesso, próximo ao mercado São Sebastião, a antiga CADEG. Uma pequena ponte de tábua, um passadiço, separava os dois mundos. 

Essa mesma Favela da Barreira do Vasco eu iria reencontrar alguns anos depois trabalhando em outro lugar. Os mesmos becos fétidos. Rios de lama, ratos por todas as partes infestavam as casas e os caminhos. Um cheiro horroroso de esgoto completava o quadro. E gente, muita gente, de todos os lugares, principalmente do nordeste do Brasil. Há quarenta anos o crescimento das favelas da Cidade do Rio de Janeiro era horizontal. Hoje é vertical. A favela se expandia por casas e casebres, até de papelão. Sua taxa de natalidade sempre foi maior que a do asfalto.

 contribuições:



Me escreve, do Rio de Janeiro, o jornalista Aristóteles Drummond para recordar sobre o governo Negrão de Lima, a quem ele serviu como Presidente da COHAB-GB, a companhia habitacional do governo da Guanabara. Eis um resumo do seu relato:


1  - não resisto a fazer um reparo no seu excelente artigo sobre o Rio. É que você foi injusto com Negrão de Lima , que foi até maior e melhor do que o Lacerda, que merece todas suas referencias .

    Lacerda começou a  remover favelas, oitenta por cento da Praia do Pinto, mas Negrão com excelentes relações com Castelo, Costa e Silva e Médici fez 35 mil casas populares e removeu todas as favelas da Lagoa, como Catacumba, Pedra do Baiano; onde esta o Shopping Leblon; Macedo Sobrinho, onde tem um CIEP na Rua Humaitá; a Piraquê, ao lado do Clube e ao longo do muro do Jockey e da pista conhecida até então como Belém-Brasília . E eu com 24 anos fui o diretor da COHAB a fazer estas mudanças. Até meus 25 anos exerci a Presidência da COHAB-GB. Por falta de sorte do Rio, 18 mil das 35 mil casas ficaram prontas no governo Chagas Freitas que optou por parar com as remoções e distribuir as casas para apadrinhados do bloco político Chagas Freitas que eram muitos.


E a Avenida Atlântica? Quem teve peito de alargar, com o Lacerda dizendo que o mar iria buscar tudo de volta? E os acessos a Barra da Tijuca -Zuzu Angel, Lagoa -Barra e os elevados? Só não quis brigar com a PUC e a passagem atual foi o Chagas Freitas que fez.


E a segunda fase do Guandu, que ele continuou e manteve a equipe do Lacerda? E a recuperação do BEG ( Banco do Estado da Guanabara) entregue ao Dr Bulhões (Otávio Gouveia de Bulhões) que colocou lá o Carlos Alberto Vieira. Um garoto.

Apoiado pelas esquerdas sim, mas governou com a direita. Quem era secretario forte? Nosso - da direita - saudoso Cotrim Neto, jurista de direita e integralista sempre, Carlos Costa, sobrinho do Adroaldo Costa, Procurador Geral do Costa e Silva; o presidente da Assembleia Legislativa Augusto do Amaral Peixoto. O Negrão foi hábil, era cordial, amigo do Clube dos Repórteres Políticos e por aí vai."

2- De Brasília e Campo Grande, Mato Grosso do Sul me escrevem os jornalistas Cezar Motta e Carlos Eduardo Bortolot, o querido Cadú. Ambos, nessa ordem, me corrigem na data da campanha de prefeito em que o ex-deputado Rubem Medina foi candidato: foi em 1985 e não 1982 como escrevi.


3- E todos eles, inclusive o grande médico carioca Pedro Henrique Paiva me escreve e me recorda a grande frase com o que o humorista Millôr Fernandes brindou o fim da desastrada administração do socialismo moreno.

3 de outubro de 2017

RIO: DE JANEIRO A JANEIRO

A cidade do Rio de Janeiro é o melhor exemplo que conheço, porque vivo, de como uma cidade se degrada. Por mais de cinquenta anos assisto, dolorosamente, seu esfacelamento e sua deterioração. E o que é pior: com a estrita colaboração do poder publico. A cidade é agredida de todo lado. Já ouvi de um carioca:

   fazem de tudo para acabar com o Rio de Janeiro. Mas a cidade resiste.

E como resiste. Vai longe o ano de 1982 quando participei de uma campanha política para prefeito da cidade. Os principais candidatos eram o ex-deputado federal Rubem Medina, então no PFL (Partido da Frente Liberal- PFL) e o ex-senador Saturnino Braga pelo PDT (Partido Democrático Trabalhista- PDT) do então governador Leonel Brizola. Eu estava na campanha do primeiro. Rubem Medina não era, na época, uma das estrelas do Congresso Nacional. Mas sempre chegou lá com votações retumbantes, expressivas. Tinha a seu favor a história de amor pelo Rio herdada de seu pai (Abram Medina um empresário que encarnou como ninguém o espirito aberto, acolhedor, alegre e liberal do carioca. De sua iniciativa nasceram grandes eventos que o consagraria como o grande empreendedor do então Estado da Guanabara) e encarnada hoje por seu outro filho, o Roberto Medina. Esse mesmo do Rock in Rio, cuja história merece um livro.

Roberto Medina era o chefe da campanha. Detalhista, arrojado, cuidadoso e transformador. Dirigia a Artplan, outro capítulo da história de amor pelo Rio da família Medina. O Roberto debruçou-se sobre o orçamento municipal por dias e dias. Dali nasceu um plano de campanha invejável e exequível sem ajuda de terceiros.

Lembro, entre outras iniciativas a previsão de um posto de saúde em cada bairro. Um deslumbrante planejamento urbano e iniciativas modernas na área de educação, na área de lazer, de limpeza urbana, de saneamento e habitação junto a um calendário de iniciativas turísticas articuladas com o que melhor possuíamos para gerar empregos e renda durante todo o ano. Era algo novo e criativo. Deslanchamos a campanha com o Rubem Medina na dianteira das pesquisas. Até que....

O adversário tinha o velho discurso ideológico da esquerda carioca e apresentava nos debates um programa populista de apoio à pobreza e redenção da miséria. Com o orçamento publico. Não detalhava nada. Mas acenava como um messias, salvador, chegando nos morros com uma tábua salvadora. Habitação para todos sem detalhar como e quanto custaria. E teve mais: o apoio incondicional do governador Leonel Brizola. Como decolava nas pesquisas e o adversário não o alcançava nos debates e ideias inovadoras, Brizola, uma raposa política habilidosa e criativa entrou na campanha como se fora ele o candidato a prefeito. Destruiu o Rubem Medina em dias.

 Mesmo com a verve do candidato a vice-prefeito, o inigualável jornalista Sebastião Nery, oriundo das hostes brizolistas, a campanha do Rubem Medina não se sustentou. Saturnino Braga seria o eleito com uma vitória retumbante. Tinha como como seu vice o Jô Resende um agitador de ruas focado no Sistema Financeiro da Habitação, SFH, o sistema de então que financiava habitações para a classe média. Anos depois foi tragado num escândalo. Um desses que assola a política brasileira, e desapareceu para nunca mais.

Derrotados e desiludidos com a escolha do carioca (Saturnino Braga é oriundo de Niterói e fez carreira política no antigo Estado do Rio de Janeiro sob as bênçãos do ex-senador Amaral Peixoto) a equipe de campanha se dissolveu e cada um seguiu seu rumo. Depois do Carlos Lacerda foi a primeira grande chance que o Rio de Janeiro teve de uma administração coerente com a história da cidade. A vitória do Saturnino Braga sepultou uma plataforma de onde se originaria um futuro pujante para a Cidade Maravilhosa. No meu ultimo encontro com os irmãos Medina, juntos, cunhei uma frase feita de mal gosto. Disse aos dois:

   o Rio de Janeiro vai chorar lágrimas de sangue com a vitória do Saturnino.

Me olharam espantados. Eu parti e nunca mais os vi. Saturnino Braga não terminou sua gestão. Renunciou antes do final do mandato por incompetência e toda sorte de desmandos, falcatruas e má administração. A imagem do seu governo que ficou foi a do lixo acumulado nas ruas fétidas que sua administração produzia.

 Rubem Medina, acostumado a eleições com votações expressivas para a Câmara Federal nunca mais repetiu esse feito. Muitos anos depois foi Secretário de Turismo de um dos governos Cesar Maia. Mas os tempos eram outros. A cidade era outra. E ele já não tinha o brilho de outrora. Se retirou da política com uma votação pífia em sua despedida.


            Mas seu irmão, o Roberto Medina continua na ativa. Hoje é o homem em quem milhões de cariocas e brasileiros veem com orgulho. Entre outras grandes realizações é o homem do Rock in Rio. Nunca desistiu da cidade. Quem desistiu da cidade foi seus próprios moradores. Anos depois os mesmos eleitores cariocas, junto aos da baixada fluminense, premiaram com outra vitória retumbante o mesmo Saturnino Braga, com um mandato de Senador pelo mesmo PDT do Estado. Vai entender essa gente.

E de lá para cá a cidade nunca mais foi a mesma. As lágrimas de sangue escorrem por sua pobreza, pelas ruelas de suas favelas, pelos caminhos de milhões de crianças sem futuro e pelo grito de dor das vítimas de balas perdidas. E das balas certeiras dos assaltos. Esta semente desastrada de um Estado caótico governado por um tipo de gente enganadora foi plantada por Saturnino Braga e Leonel Brizola. E vingou. Nas águas desse Rio de Janeiro corre muitas outras histórias dolorosas. Sua gente se ilude ou é enganada a cada eleição.  
   



26 de setembro de 2017

Rio de Janeiro e a Gunabara



A desgraça do Rio de Janeiro vem de longe. Muito longe. Seus mais de 100 policiais mortos em combate nesse ano de 2017 é um retrato, trágico e incompreensível, de uma das faces da realidade cruel da outrora Cidade Maravilhosa. Vivemos hoje numa cidade e num Estado que quase nada funciona direito. A Polícia é a instância mais recorrida pelos moradores. Aqui se chama a polícia para tudo. Um soldado da PM é sobretudo um especialista em gente. O carioca se socorre dela para fazer parto, separar briga de vizinhos, coibir abusos de comportamento, de falta de educação, para retirar casa de abelhas, de maribondos e até socorro a velhos, inválidos e animais. Trocar tiros com bandidos é apenas uma de suas missões diárias. Quer saber mais? Busque uma pesquisa de um dia no número 190 o telefone de socorro policial posto a serviço da população.

Essa dura realidade é a foz de um caudaloso Rio de problemas. Foi uma cidade maravilhosa até os anos setenta do século passado. A desgraça começa no governo Juscelino Kubistchek. Ele construiu Brasília e levou a sede do governo federal. O Rio de Janeiro era uma cidade Estado. Como Singapura. Fácil de governar, compreendia apenas o Estado da Guanabara. Cercada de praias e montanhas foi o cenário perfeito para políticos, poetas, intelectuais, artistas, pintores, escritores, vagabundos e putas. Toda essa malta constituía a mais fina flor da cultura nacional. A Guanabara era o centro irradiador de uma fulgurante constelação de inteligência e assim permaneceu após a saída do governo federal. O Governo se foi sem um planejamento de longo prazo para a cidade. Não houve prazos para tirar o estamento burocrático federal do Rio de Janeiro. Aqui ele permaneceu e ainda hoje se encontra fragmentos dessa casta. Mas o orçamento gordo da Republica foi embora.

Ainda daria sorte o Estado da Guanabara. Em sua primeira eleição venceu a figura excêntrica do jornalista Carlos Lacerda. De repórter, comentarista e jornalista político acabou se transformando no maior administrador urbano que o país já viu. Em poucos anos rasgou a cidade com obras monumentais que não só trouxe conforto e progresso para a população como beleza, estética e elegância para um cenário deslumbrante. Removeu favelas inteiras e criou parques fascinantes. Dotou a cidade de um sistema de abastecimento de água que ainda hoje socorre sua população. A cidade se bastava. Jorrava alegria e cultura. Lacerda saiu do governo endeusado. Sonhava ser candidato a Presidente da Republica. Deixou no cargo o seu vice o brilhante advogado Raphael de Almeida Magalhães, esse outro vulcão em inteligência e amor à cidade. Coube a ele arrematar o que Lacerda empreendeu. Foi Lacerda quem trouxe um grego chamado Doxiades, o mais respeitado arquiteto urbano da época. Este senhor redesenhou a Cidade e criando as linhas com nomes de cores que dão ao Rio de hoje maior espaço de movimentação urbana. Até os sucessivos governos não terminaram o plano.

Aí veio 1964 Lacerda foi cassado, Juscelino também e a Guanabara passou a ser governada pelo diplomata Negrão de Lima. Vai entender essa gente... Negrão foi eleito contra o candidato de Carlos Lacerda, o professor Flecha Ribeiro. Aquele que tudo fez para tornar o Rio moderno não conseguiu fazer o seu sucessor. Negrão de Lima fez um governo elegante e burocrático tal qual sua figura. Mas era apoiado pela esquerda. Daí fortaleceu o mito e a corrente de pensamento ideológico que iria dominar o pensamento e a cultura da cidade após 1964. Depois disso vem os militares com a Revolução. Até o final do governo Médici a Guanabara brilhava no cenário nacional. Não por questões ideológicas, mas os militares através do Presidente Ernesto Geisel é quem vai plantar a semente e pavimentar o caminho para o caos. Isso fica para depois.